segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CRISTO É O CENTRO



Afirmar a centralidade de Cristo para evitar que a cultura comercial que envolve o Natal nos desvie do seu centro único; a Pessoa de Cristo e Sua Encarnação. Essa compreensão deve nortear a programação das famílias e da igreja nesse período do ano. O verdadeiro sentido desta celebração está na revelação da fé cristã sobre a essência da vida escondida em Deus. 
Atingir a profundidade do nosso ser, mergulhar abaixo da superficialidade de uma vida escravizada pelo dinheiro, poder ou ideologias depende da experiência pessoal com o Deus-Homem que quis mostrar-se explicitamente na pessoa histórica de Jesus de Nazaré, o Cristo Vivo que move a história. Para usar a linguagem da Física, Cristo é a força centrípeta, ou seja, exerce o poder de atração. Paulo, apóstolo, usou a expressão “fazer convergir”. Cristo gera, atrai e move desde histórias pessoais anônimas até a conjuntura política das grandes nações. Em torno de si e por sua causa existe o universo e existimos todos nós. 
A Bíblia tem na pessoa de Cristo o seu âmago. Ouvi repetidas vezes essa defesa nas aulas de Introdução Bíblica com o pastor Jonas Barreira de Macedo Filho. Toda a Escritura deve ser interpretada a partir da vida e da obra de Jesus. O Antigo Testamento descreve a nação escolhida para trazer ao mundo o Salvador. O Novo Testamento revela Sua Pessoa. Os eventos, personagens e profecias dos textos sagrados apontam para o Eterno Filho de Deus e giram em torno dEle. Do Gênesis ao Apocalipse, encontramos Sua Revelação. 
Em Gn 3,15, temos o primeiro anuncio do evangelho, imediatamente após a queda do gênero humano: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. A partir desta profecia, passamos a compreender progressivamente através de atores e eventos bíblicos a missão do Cristo: Noé e o dilúvio; Abraão e aliança com Deus; Moisés e a libertação do povo; Davi e o reinado segundo o coração de Deus; os profetas e o anuncio da vinda do Messias, o escolhido de Deus. 
E após descrever sua vida, morte e ressurreição, a Bíblia conclui: “Eu sou o Alfa e o Omega, e o que vivo” (Ap. 1,17-18a). Por isso, no Natal, a nossa atenção deve transpor o menino do presépio, os pastores de Belém, os reis e os presentes. Devemos fitar os olhos no Deus Eterno que se faz carne para salvar o homem do pecado e da morte. Através desse olhar nossas afetos e interesses encontram a fonte capaz de equilibrá-los. Somente com Cristo no centro gerador de nossa vida alcançaremos saúde, pois Ele é a própria vida. 
O apóstolo Paulo proclamou esta verdade afirmando que pela vontade de Deus, “de fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Ef. 1,9-10), Cristo se tornou o cerne da vida. Ele é a árvore colocada no meio do jardim, no Éden, sem ela nada podemos fazer, pois somos seus ramos, dela recebemos a seiva vital. Todas as coisas devem convergir para Cristo. 
a) o mundo, enquanto sistema – não há autoridade humana que se estabeleça diante de Cristo sem submeter-se a Ele. É Ele que afirma: ´Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt. 28,18); 
b) a igreja, corpo de Cristo – Ele é o Senhor da Igreja, adquiriu-a com seu próprio sangue (Atos 20,28), é sua pedra fundamental (Mt. 16,18). 
c) a família, lugar da fé genuína – Em sua disciplina e admoestação os filhos devem ser criados (Ef. 6,4), no modelo de sua graça o casal deve se relacionar (5,25-28); 
d) da vida pessoal, de todos e todas – quando aceitamos o convite de tomar a nossa cruz e segui-lo, esvaziamo-nos do próprio eu e vivemos nEle (Gl.2,20), porque em nenhum outro nome há salvação (Atos 4,12). 
Para vivermos com dignidade diante de uma cultura marcada pela violência, desigualdade e injustiça, precisamos fazer de Cristo o núcleo vital das nossas vidas. Dele receberemos todo amor suficiente para construirmos relacionamentos fraternos e solidários, único meio de vencer a cultura de morte que nos cerca. Colaborando com Seu agir na história poderemos mudar estruturas de pecado organizadas para fazer do mal um estilo de vida. 
Vivendo numa sociedade que transforma pessoas em mercadorias e guia-se pelo sucesso independente da miséria alheia, o Natal anuncia que um bebê destrona poderosos e faz dos pobres os primeiros no reino de Deus. Nós somos servos de Cristo e o nosso valor está em adora-lo acima de tudo e de todos. Ele é o centro de força, a fonte da vida, o ponto médio de cada indivíduo e de todo o universo.

domingo, 28 de outubro de 2012

REFORMA PROTESTANTE: A LEMBRANÇA DA HERANÇA


O ciclo natural de permanência numa igreja dita “evangélica” hoje não dura mais de sete anos. Abertas por atacado em cada esquina, essas igrejas não fazem questão de identificação histórica com qualquer herança cristã. Estamos vivendo uma geração cada vez mais entorpecida de novidades que não quer aprender com a memória de fé dos antigos. Receio perguntar a alguém que se identifica como evangélico quem é Martinho Lutero! Ou ainda “o que é ser “protestante”! Mas o pior é constatar que a raiz do catolicismo medieval ressurgiu de forma disseminada nas igrejas independentes que se multiplicam a cada semana.

Em 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero publicou na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg, na Alemanha, 95 teses contrarias às doutrinas Católica das indulgências e da infalibilidade do Papa. Essa data é adotada pelo mundo protestante como o marco da renovação espiritual da Igreja na Idade Média. O início do que hoje se convencionou chamar de “igreja evangélica ou protestante”. Esse evento histórico está associado à descoberta pessoal da doutrina da justificação pela fé, quando Lutero estudava a Carta aos Romanos. “Mas o justo viverá da fé” (ROMANOS 1:17b). O que levou o Reformador a ensinar o Sacerdócio Universal, ou seja, “cada homem é padre de si mesmo”.

A importância de Martinho Lutero para o Cristianismo está na ruptura com o sistema romano. Sua busca pessoal representou o anseio de cristãos sinceros que lutavam por um retorno à pureza do Evangelho e à consequente purificação da Igreja que segundo ele deveria ser reformada (ecclesia reformata et semper reformata est). Ele se posicionou contra o legalismo e o misticismo de uma igreja que propunha o relacionamento com Deus punitivo baseado na culpa. Algumas práticas religiosas revelavam essa atitude: confissão a sacerdotes, ritos sacramentais, peregrinações, repetição de orações, doações de dinheiro, compra de indulgências, autotortura.

Os sacramentos eram uma espécie de “graça mágica” transmitida através da obediência a leis eclesiásticas. Os dois principais eram a missa, celebrado coletivamente com elementos objetivos como a hóstia, e a penitência, de caráter individual e subjetivo. A salvação dependia das indulgências, a absolvição de pecados confessados no sacramento da penitência. O poder para perdoar esses pecados estaria fundamentado no direito divino reivindicado pela Igreja. Ensinava-se que os sacerdotes podiam lançar mão do “tesouro da igreja”, um poder espiritual acumulado pelos méritos excedentes de Cristo e dos santos para concederam perdão.

Diante deste esquema de poder religioso onde a piedade estava fundamentada na magia e no legalismo, Lutero deu o grito mais alto daquele momento de mudanças. Rebelou-se contra essas distorções e abusos. Enfrentou o comércio de indulgências sob a ameaça de excomunhão e até mesmo de morte. Para ele, a relação do homem para com Deus era pessoal, sem qualquer mediação, estabelecida pela aceitação da mensagem da salvação. E o arrependimento deveria ser uma atitude contínua: “Nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, ao dizer ‘arrependei-vos’, desejou que a vida inteira dos fiéis fosse penitência” (TESE 01). A igreja deveria voltar ao ensino apostólico: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie” (EFÉSIOS 2:8-9).

Lembrar da herança reformada não apenas em datas como o 31 de outubro, mas no cotidiano da igreja local é uma maneira de manter viva a chama do Evangelho que purifica o cristianismo de toda contaminação herética. O ressurgimento da religião medieval em igrejas independentes centradas em seus próprios líderes e nos meios mais abusivos de conseguir adesão e dinheiro deve levar os verdadeiros cristãos a pelejarem pela “fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (JUDAS 1:3).

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"VEREI DEUS"



“Eu sei que o meu Redentor vive, 
E que no fim se levantará 
Sobre a terra. 
E depois que meu corpo 
estiver destruído e sem carne, 
verei Deus. 
Eu o verei 
Com os meus próprios olhos; 
Eu mesmo, e não outro! 
Como anseia no meu peito o coração!” 
(Jó 19,25-27) 

Encontramos aqui Jó angustiado diante das palavras dos amigos que insistem no argumento de que a raiz do seu sofrimento seria o pecado. Depois de cair na armadilha da “lei da retribuição”, Jó agora lança-se na esperança de resgate, como num suspiro em busca de alívio, e expõe confissão de fé que surpreende quem vem lendo desde os primeiros capítulos. Evoca a figura do redentor e projeta sua salvação para um tempo posterior à sua morte quando seria por fim redimido. 
“Resgatador” refere-se a um papel social importante no antigo Israel. Lembramos que Boaz exerce essa função casando-se com Rute (Rt 4). Deus é o libertador da escravidão egípcia e também resgata o povo exílio. Jó afirma sua certeza de ser defendido, redimido, resgatado. Deus é para ele o advogado que se levantará no final. 
Nestes versos, o livro antecipa surpreendentemente a doutrina da ressurreição exposta pelos escritores do Novo Testamento. Ultrapassa os limites do sepulcro associando a fé ao desejo de ver a Deus. A certeza que preenche a mente também completa o coração de alegria. Alegria que brota do desejo por Deus. 
John Piper, pregador do hedonismo cristão, defende a doutrina protestante sintetizada na Confissão de Westminster: “Deus é mais glorificado em nós quanto mais nos alegramos nEle”. Piper relaciona alegria e desejo quando fala de fé salvadora: “fé salvadora é desejar Jesus”. Para Jó, o desejo de ver seu Redentor movia-o m meio ao sofrimento e gerava satisfação e superação. 
O confronto com o sofrimento e a morte serve-nos de avaliação eficaz dos desejos. O sofrimento purifica o desejo, a fé eleva-o. Passando pelo “vale da sombra e da morte”, enfrentando a dor lancinante da perda dos filhos, a incompreensão da esposa, a acusação dos amigos, o atordoamento da enfermidade, Jó nos ensina que a fé na redenção final é geradora de satisfação plena em Deus hoje. 
Seu corpo desfalecia, sua carne era destruída, sua alma gemia. Mas desejar Deus o fortalecia. Desejar vê-Lo alimentava-o. Deseja-Lo permitia a vitória sobre a morte. Desejar era seu triunfo

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

ADORANDO A DEUS EM FAMÍLIA


O cristão vive subordinado à certeza de que Deus governa a história. E é na vivência da fé em família que o cristianismo se fortalece. Herdada do povo judeu, a prática do culto no lar confere à igreja cristã sua autenticidade. A igreja, povo de Deus, nasce do Seu chamado a famílias. Se cremos que Deus age sempre através da família, é no ambiente familiar que devemos desfrutar da fé genuína que nos conduz na vida pública. 
Na criação, a humanidade nasce como família, Adão e Eva. Antes do dilúvio, Deus levantou a família de Noé. Em Abraão, uma família abençoa todas as famílias da Terra. Para Moisés, família foi canal de libertação do povo. Com a família de Davi é confirmada a esperança messiânica para as famílias. Jesus é Deus nascido em família. No Apocalipse, o céu é uma grande festa em família. Deus age através de famílias e espera que as famílias realizem Sua Vontade no mundo. 
O livro de Êxodo narra (1-2) como a família de Moisés tornou-se um canal para livrar o povo hebreu da opressão egípcia e realizar a promessa feita aos patriarcas. Ele concedeu saúde aos pais do menino tornando-os fecundos (1,9). Protegeu a criança no Rio (2,3) e agiu através do relacionamento com as parteiras (1,17). Aquela família levita sonhou ser usada por Deus (2,1), por isso o casamento como compromisso de amor e serviço. 
A fé cristã deve ser nutrida no lar. Quando nossa família enfrentar um tempo de mudanças boas e ruins, como foi com Moisés, deve priorizar a adoração em família. Se somos cristãos cremos que Deus governa a história da nossa família. Se cremos assim, cultuamos a Deus no lar. O culto doméstico não é um mero ritual, é expressão de uma fé genuína, eficaz, viva. Martinho Lutero disse: “Ter um Deus é cultuá-lo”. Concluímos esta breve reflexão acrescentando: “Ter um Deus é cultuá-lo em família”.

sábado, 13 de outubro de 2012

FALAR DE DEUS USANDO VERBOS


A visão de mundo cristã leva em conta a existência de um Deus pessoal e sua ação na História. Agostinho, filósofo e teólogo cristão do século IV, em sua declaração “credo ut intelligam” (“creio para entender”) ensinou que o cristão vê o muno através da fé. A fé cristã, por sua vez, encontra seu fundamento na percepção de Deus. 
Ed René Kivitz, em Vivendo com Propósitos, escreveu sobre o melhor que conseguia perceber de Deus. Para Ele Deus é “o funda­mento pessoal de toda a realidade existente”. Paulo apóstolo citou o poeta Epimênides (600 a.C) em seu discurso no areópago ateniense para referir-se ao “Deus desconhecido”: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17,28). A existência humana está fundamentada nEle. 
O povo hebreu influenciou decisivamente o cristianismo com sua experiência histórica de fé. A formação e o desenvolvimento de Israel como nação tem como centro gravitacional a confissão de fé registrada no Deuteronômio: “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). Eduardo Getão, professor de História das Religiões, observa que “Não existe fé israelita, não existe bíblia hebraica, não existe a religião sem a profissão de fé formulada com clareza cada vez com mais ênfase, sem esta fórmula da aliança: “Senhor (Javé) é o Deus de Israel, e Israel é o seu povo”. 
Olhar para a vida cotidiana dos hebreus ajuda a esclarecer a cosmovisão bíblica hebraica. Para esse povo a vida tinha enfoque na relação com o Criador, que dominava o universo. A ação de Deus na história era a razão da vida e a causa de tudo. No contexto antiquotestamentário natural e sobrenatural interligam-se numa realidade entrelaçada e complexa. Crer era ser fiel e apostar a vida, ser parte de uma comunidade de fé. Orar é tornar o mundo santo. 
Depois de ouvir uma exposição dessa concepção de mundo numa palestra de Luiz Sayão constatei que estou mais enquadrado numa perspectiva inspirada na visão grega ocidental. Mais preocupado com o pensamento abstrato sobre Deus, a busca da Sua essência explicada de maneira sistemática. Nesse ponto de vista, crer resume-se em concordar com a mente. 
Relacionei essa reflexão com as explicações do Dr. Ágabo Borges nas aulas de Antigo Testamento no Seminário sobre a “mente hebraica”. A fascinante visão da história como palco da ação de Deus. A perplexidade diante da concepção de tempo tão diferente na nossa. O passado está diante dos olhos, podemos como Deus agiu e crer que Ele agirá. O futuro está atrás, oculto, mas determinado pela palavra de Deus que acontece e faz a história. 
Werner Schmidt em Introdução ao Antigo Testamento analisando como se fala de Deus observa que o AT vincula a confissão da eternidade de Deus com a consciência histórica da temporalidade da fé. Comentando a libertação do Egito como ato fundamental para a história de Israel, revelando quem Deus é através da narração de como ele age, o autor escreve: “Visto que o acontecimento preserva um significado que ultrapassa o âmbito daqueles que foram diretamente atingidos e com isso se mantém aberto em relação ao futuro, podem ser acrescentados a este evento em particular outros acontecimentos, de sorte que na retrospectiva o louvor a Deus abarca uma sucessão de acontecimentos”. 
O estudo filológico do nome IAHWEH, comumente traduzido como “Eu sou quem eu sou”, mostra que seu significado é mais dinâmico que o nosso verbo ser. Hans Walter Wolf, em Bíblia Antigo Testamento destaca que o sentido é mais de atividade, refere-se a uma auto-revelação, uma auto-interpretação no seu agir histórico. Wolf diz que a tradução tradicional é problemática e propõe em substituição uma melhor: “Eu me revelo como aquele que se revela” ou “Eu sou (operante como) aquele que se põe a trabalhar”. 
Depois destas anotações iniciais procurei esboçar uma leitura do Antigo Testamento, aprendendo com a experiência do povo hebreu como conhecer e vivenciar a relação com Deus a partir de verbos, da ação, da relação. Farei uma tentativa, limitada e convido o leitor a completa-la. 

I – DEUS VIVE 

Dizer que Deus vive é afirmar que Ele é suficiente

“Mas o Senhor é o Deus verdadeiro; ele é o Deus vivo; o rei eterno. Quando ele se ira, a terra treme; as nações não podem suportar o seu furor” (Jr 10.10 – NVI). 

“Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando poderei entrar para apresentar-me a Deus?” (Sl 42,1-2– NVI). 

II – DEUS CRIA 

Dizer que Deus cria é afirmar que Ele é universal

“e abençoou Abrão, dizendo: "Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, Criador dos céus e da terra” (Gn14,19 – NVI). 

“Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo surgiu” (Sl 33,9 – NVI). 

III – DEUS GOVERNA 

Dizer que Deus governa é afirmar que Ele é soberano. 

“Como são belos nos montes os pés daqueles que anunciam boas novas, que proclamam a paz, que trazem boas notícias, que proclamam salvação, que dizem a Sião: "O seu Deus reina!" (Is 52,7 – NVI). 

“Então louvei o Altíssimo; honrei e glorifiquei aquele que vive para sempre. O seu domínio é um domínio eterno; o seu reino dura de geração em geração” (Dn 4,34 – NVI). 

IV – DEUS PROMETE 

Dizer que Deus promete é afirmar que Ele é fiel

Deus afirmou: "Eu estarei com você. Esta é a prova de que sou eu quem o envia: quando você tirar o povo do Egito, vocês prestarão culto a Deus neste monte" (Ex 3,12 – NVI). 

“Agora, Senhor Deus, confirma para sempre a promessa que fizeste a respeito de teu servo e de sua descendência. Faze conforme prometeste” (2 Sm 7,25 – NVI). 

V – DEUS PROTEGE 

Dizer que Deus peleja é afirmar que Ele é todo-poderoso. 

“Quando Abrão estava com noventa e nove anos de idade o Senhor lhe apareceu e disse: "Eu sou o Deus todo-poderoso ande segundo a minha vontade e seja íntegro.” (Gn 17,1). 

“Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42,2 – NVI). 

A lista de verbos deve ser ampliada pela experiência de conhecimento de Deus na história do seu povo, na Bíblia, na Igreja, na família. Todos os dias podemos falar de Deus usando verbos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

TEOLOGIA E TEOLOGIAS - ENTENDENDO A DINÂMICA



Muito embora exista uma conceituação teologia aceita na tradição cristã, conforme procuramos resumir em outra postagem (Conceito de Teologia), é inevitável ao conhecimento teológico uma multiplicidade dos vários sistemas. Essa variedade desafia do teólogo em sua tarefa de encarnação num determinado contexto. Ao encarnar a mensagem cristã na cultura do povo que o recebe, fatalmente o teólogo ampliará essa diversidade no próprio exercício do pensamento teológico. 

Em sua Antropologia Teológica, Batista Mondim identifica que a disparidade dos paradigmas teológicos emana da própria natureza da teologia. Ele destaca dois princípios supremos nos quais se estrutura o trabalho do teólogo: o arquitetônico e o hermenêutico.

O princípio arquitetônico é o mistério da revelação, registrado nas Escrituras e fundamento para outros mistérios e eventos da história da salvação. O princípio hermenêutico está baseado na razão, e parte da filosofia para a compreensão e interpretação da fé. Tanto um quanto o outro são passíveis de múltiplas versões. São muitos os mistérios bem como várias as visões filosóficas.

Assim, a escolha dos princípios supremos definirá toda a natureza da teologia a ser desenvolvida. Na história da teologia encontramos vários desdobramentos. Na Antiguidade e no Período Medieval, a teologia católica dividiu-se a partir do princípio hermenêutico em patrística e escolástica, a primeira com a filosofia platônica e a segunda com a aristotélica.

Na teologia contemporânea, o pluralismo teológico deve-se à escolha destes princípios. A divergência e originalidade de teólogos e correntes podem ser verificadas ao longo do século XX. As principais visões teológicas desse período foram: teologia radical ou “da morte de Deus”, teologia da esperança, teologia da práxis ou política e teologia da cruz. Mondim faz uma exposição sintética destas correntes em seu texto.

Para este teólogo, as teologias nascem da exigência de adequar a mensagem cristã à perspectiva própria de uma determinada geração ou de um ambiente cultural particular, que se encontra refletida na filosofia desenvolvida naquele ambiente. As teologias nascem da teologia em função da vocação missionária da Igreja, a vocação de encarnar a mensagem cristã no mundo. Contudo, ao estudarmos as várias teologias, não podemos abandonar o conceito de teologia cristã, sobretudo no que diz respeito à centralidade da revelação escriturística.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PASTOR DEVE ESTUDAR TEOLOGIA


O estudo teológico é indispensável para a prática pastoral. Nada obstante ser esta uma constatação de fácil aceitação, o quadro geral do ministério da palavra, sobretudo entre os neo-pentecostais, parece negar a sua necessidade. 

Conforme estudo inédito feito pela Fundação Getúlio Vargas, publicado na revista Veja em junho de 2006 na matéria “O Pastor é Show” o crescimento numérico dos evangélicos deve-se sobretudo a uma nova geração de pastores. A revista apresenta-os como pregadores que usam a psicologia e a autoajuda aliadas a uma indústria do espetáculo. 

O “show” desses “sacerdotes midiáticos” usa como suporte desde as regras de etiqueta até os mais sofisticados recursos da telecomunicação. A formação teológica exigida para esses líderes constitui-se de cursos práticos ministrados na própria igreja, tendo como temas: oratória, etiqueta e gerência financeira de templos. É o que diz a revista. Na prática esse quadro estatístico se reflete em espetáculo, entretenimento e comércio. 

A pergunta que obrigatória é pela identidade bíblica do que se ensina, a coerência com a história de fé do povo de Deus, a resposta profética a problemas como corrupção e violência. Estas são interrogações que situam o estudo da teologia em nosso tempo e delineiam sua relevância. Os pastores são teólogos. O povo faz teologia. A questão é sobre os fundamentos bíblicos e cristãos desse fazer teológico. Com se tem arquitetado esse “teologar” diante das demandas atuais?
O evangélico deve estudar teologia para saber o que é ser evangélico. O pastor o deve muito mais. Conhecer e contextualizar a fé da igreja a partir da Bíblia e da história é uma tarefa pastoral. Para organizar e expor de maneira clara as principais declarações da fé protestante o pastor precisa investir numa biblioteca teológica. O pastor deve estudar teologia para mostrar que a fé não exclui a razão e que a fé evangélica merece espaço como contribuição relevante para o enfrentamento dos principais problemas da sociedade hoje.

sábado, 22 de setembro de 2012

A CENTRALIDADE DE DEUS NO CULTO CRISTÃO



O Antigo Testamento estabelece a centralidade de Deus no culto. Esse ensino radicado na experiência histórica dos judeus ultrapassa os limites da sua religião e influencia decisivamente o Cristianismo. Nada obstante o culto cristão ser centrado no “evento” Cristo, o temor a Deus ao redor do qual orbita a celebração cúltica foi preservado e intensificado no Novo Testamento. 
Em Hebreus 12 encontramos impresso o sentimento de temor característico da adoração no Antigo Testamento. A partir do verso 18, descrevendo a epifania do Sinai, comparado a um espetáculo vulcânico, o autor da epístola informa que até Moisés ficou apavorado. A seguir apresenta a realidade espiritual da igreja e conclui convocando os destinatários a uma atitude de reverência e temor que supera a vivência do povo da Antiga Aliança: “Ora, esta palavra: Ainda uma vez por todas significa a remoção dessas coisas abaladas, como tinham sido feitas, para que as coisas que não são abaladas permaneçam. Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor... por que Deus é um fogo consumidor” (27-29). 
O teólogo protestante alemão Rudolf Otto constatou em seu estudo comparado das religiões que a experiência do sagrado envolve o sentimento de pavor, mysterium tremendum, em oposição ao mysterium fascinans, que atrai o homem para um relacionamento mais profundo e intenso. É como se Deus produzisse em nós atração e repulsão simultaneamente. Na medida em que somos atraídos por uma força misteriosa, outra força igualmente misteriosa nos leva a fugir, como se nele houvesse algo que nos amedronta e apavora. O homem tem um sentimento de profunda nulidade diante dEle, sente-se não ser mais do que uma criatura, com comentou o professor Merval Rosa. 
A diferença fundamental do Novo Testamento está na perfeição do sacrifício de Cristo que torna a vida cristã “um reino inabalável”, mas que igualmente exige “reverencia e temor”. Na igreja cristã, a centralidade de Deus e o temor a Ele devido devem se manifestar numa prática litúrgica coerente com esta compreensão. Esse temor não se traduz em medo de aniquilamento apenas, mas em compromisso radical, em levar Deus a sério, tÊ-lo diante dos olhos. Nas palavras do autor aos Hebreus: cultuar “fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (12,2). Saber ser aceito por Deus através do sacrifício de Cristo e saber que isso exige tudo. Culto público sem esse culto pessoal é simplesmente festa da carne. 
Lembro-me da experiência de um colega no seminário que foi procurar seu mentor, um pastor muito experiente, pois estava experimentando um temor muito intenso ao pregar. Isso estava interferindo em seu desempenho, deixava-o paralisado, incomodado. O seu pastor de pronto respondeu: “até hoje sinto-me assim; no dia em que você deixar de sentir, deixe de pregar”. 
Lamentavelmente a igreja evangélica tem permitido a vulgarização do culto ou, pelo menos, a redução da sua profundidade, trocando reverencia por entretenimento, deixando de adorar a Deus para satisfazer o homem, abandonando teocentrismo e adotando o antropocentrismo. 
E antes que o leitor se canse rejeitando nesse texto o que considerar lugar comum ou clichê pastoral, insisto que não podemos “separar o que Deus uniu”, o culto da vida, a celebração pública da devoção pessoal. Toda crítica que se levante sobre essa liturgia formatada pelo mercado gospel ainda é insuficiente. Na prática do ministério tenho identificado uma regra: se a comunidade não é capaz de experimentar a riqueza e a profundidade de uma celebração coletiva plena e abundante da presença tremenda e fascinante de Deus, então devo constatar que a vida espiritual, familiar e diária é pobre e rasa. 
Voltando para a influência do Antigo Testamento no culto da igreja cristã, chegamos a Abel. Com ele testemunhamos o primeiro sacrifício registrado na Bíblia dentro do modelo cúltico que se estabeleceu desde a criação até o êxodo, simbolizado pela figura do altar. Consideramos dois elementos daquele culto como referenciais norteadores para toda a Bíblia e, por isso, necessários para nossa prática litúrgica hoje. 
Um culto comprometido com a excelência. Em Gênesis 4,4 está registrada a preocupação de Abel em trazer para o altar as “primícias”, a gordura das primeiras crias do seu rebanho, o primeiro cordeirinho, uma oferta mais excelente. A Epístola aos Hebreus justifica a inclusão de Abel na galeria dos “heróis da fé” com a nota: “Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente oferta” (Hb 11.4). Deus mesmo promulgou este princípio para o culto ao rejeitar a atitude relaxada, preguiçosa e leviana do seu povo através do profeta Malaquias: “Pois quando ofereceis em sacrifício um animal cego, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou o doente, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; terá ele agrado em ti? Ou aceitará ele a tua pessoa? diz o Senhor dos exércitos” (Ml 1.8) 
O pastor Josué Salgado relacionou essa atitude no culto com uma postura diante da vida: “Por trás de uma oferta e um culto de má qualidade, há sempre um adorador deficiente e rejeitado por Deus!”. 
Um culto comprometido com a integridade. Na história de Abel fica evidente esse ensino sobre adoração: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn 4,4). Primeiro Deus aceita o ofertante para depois aceitar a oferta. A formação do povo de Israel na adoração mostra que o caminho para essa integralidade é da devoção pessoal para a celebração pública, do secreto do quarto para a festa da comunidade. Como disse certa irmã idosa aos seus netos, de maneira simples e direta: “Encha a vida de Deus durante a semana e vá para o templo no domingo completar”. A celebração coletiva é oportunidade de completar e transbordar da vida de Deus experimentada no dia-a-dia. 
Aprendemos assim com Antigo Testamento que Deus está no centro do culto da vida e esta vivência individual se expressa coletivamente na congregação. Sem o temor a Deus não é possível cultuar. Para servirmos a Deus de modo agradável mediante a graça que recebemos em Cristo devemos prestar nosso serviço cúltico a Deus, considerando-o como o centro de nossas vidas, como uma chama viva que queima nossos corações.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

MARAVILHOSA GRAÇA



Amazing Grace (Maravilhosa/ Preciosa Graça) é uma das canções mais executadas. Cantada por grandes músicos como Celtic Woman, Soweto Gospel Choir, IL Divo, Elvis Presley, Michael Smith e orquestrada por André Rieu. Já integrou repertório musical em grandes eventos musicais e até em tragédias como o massacre numa sala de cinema em Aurora-EUA quando pessoas que participavam da vigília consternados a entoaram.

Em 2006 foi lançado o filme "Amazing Grace"(Jornada pela liberdade). A película trata da vida de William Wilberforce, um ativista contra a escravidão durante o século 18, Jonh Newton - compositor da letra desta canção- é representado no filme como amigo e mentor de Wilberforce. A magnitude desta canção que a fez transpassar séculos seguramente será pela profundidade da doutrina da indizível Graça do Nosso Senhor expressa na letra de quem compreendeu que é inaceitável a crueldade das correntes q aprisionam seres humanos assim como é terrível ser/estar acorrentado pelo pecado.

Eis um pouco da história da letra e da melodia desta bela canção:


História da letra e vídeo:

Por volta de 1750, John Newton era o comandante de um navio negreiro inglês. Numa das suas viagens, o navio enfrentou uma enorme tempestade e afundou-se. Foi nesta tempestade que Newton ofereceu sua vida a Cristo, pensando que ia morrer.Após ter sobrevivido, ele converteu-se verdadeiramente ao Senhor Jesus e começou a estudar para ser um Pastor”. Nos últimos 43 anos de sua vida ele pregou o evangelho em Olney e em Londres. Em 1782, Newton disse: "Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador."No túmulo de Newton lê-se: "John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos na África, foi, pela misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé que ele tinha se esforçado muito por destruir". O seu mais famoso testemunho continua vivo, no mais famoso das centenas de hinos que escreveu:

Elisângela Soares
(Por e-mail)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O DESAFIO DA DIVERSIDADE NO CULTO CRISTÃO

 


processo de construção de uma celebração coletiva reúne várias vozes, mãos e posições diferentes. Desde a seleção das músicas, a escolha das leituras bíblicas, a inclusão de participações individuais, tudo converge para expressar a adoração da igreja local, um estilo que contemple diversas influências até que se alcance o máximo de representatividade do povo. 
Numa igreja batista, por natureza marcada pela autonomia, que incentiva a liberdade de consciência e a consequente responsabilidade individual de seus membros, essa é uma tarefa espinhosa, mas com recompensa insuperável. Vale a pena todo esforço do pastor, do ministro de música, dos demais líderes envolvidos nas áreas de artes e comunicação para a construção coletiva do que chamamos de “culto”, de modo que ele venha manifestar a “multiforme graça de Deus” na adoração da comunidade.

Mesmo sendo este um ideal, reconhecemos a tendência pela uniformização que prioriza o conforto ou o poder. Sente-se aí o peso da tradição, do que já foi feito, do que se considera melhor, do passado. Recebemos uma herança riquíssima dos nossos pais espirituais e devemos valoriza-la também no que diz respeito à forma de cultuar em comunidade. Contudo, as novas gerações enriqueceram significativamente a liturgia das nossas igrejas e cabe-nos incorporar criticamente as marcas de um novo tempo. 

A visão crítica e reflexiva nos levará a rejeitar as tentativas de imposição de um estilo pessoal sobre a coletividade, mesmo que venha do pastor. Essa tendência pode se manifestar na interpretação bíblica equivocada que quer ver um estilo uniforme de culto na igreja primitiva. Na verdade nunca existiu “a igreja primitiva” e sim “as igrejas cristãs do primeiro século”. Por isso deve-se aprender com seus diversos estilos culto. 

Paulo Siepierski e Glenn Hinson dedicam um capítulo do livro “Vozes do Cristianismo Primitivo” a esse debate. Hinson afirma: “A característica mais óbvia a ser atribuída ao culto no primeiro século é diversidade”. O estudo mostra que dois estilos foram fornecidos pelo judaísmo: templo e sinagoga, e os outros dois nasceram de preocupações cristãs específicas: cenáculo e palavra. 
Fica esclarecido, então, que qualquer experiência de uniformização da liturgia na igreja hoje tomando por fundamento o Novo Testamento é emocional ou política. Para ser coerente com o culto neotestamentário, a igreja deve zelar pela heterogeneidade quer seja na participação de todas as faixas etárias, quer na inclusão de ritmos e expressões artísticas diferentes. Idosos e adolescentes, homens e mulheres, doutores e analfabetos, comunicando através da celebração o milagre da unidade na diversidade. 
A música de Guilherme Kerr, Unidade e diversidade expressa poeticamente este ideal: 

Da multidão dos que creram era só um o coração 
E a alma, uma somente, uma semente 
Somente uma esperança brotando dentro da gente 
Nosso era o pão cada dia, 
Nosso era o vinho, santa folia 
O que se parte reparte a própria vida 

Quando ouço essa música sou levado cativo do sentimento de pertença à origem singela e profunda que essa canção lembra. Sou levado a ler Atos dos Apóstolos com esse vínculo afetivo, especialmente os capítulos 2 e 4, referenciados pelo autor. Deixo de perceber, no entanto, que Lucas não omitiu as crises e conflitos próprias desse período e incluiu em sua narrativa como desafios que ainda são atuais. 
É um sentimento semelhante ao do “primeiro amor”. Vivi esta experiência na Primeira Igreja Evangélica Batista em Itamari, na década de noventa, quando ainda adolescente, e fui decisivamente influenciado pelo estilo do meu pastor, Osias Antônio Lima, obreiro veterano, com formação batista regular, e muito rigoroso em sua interpretação do que chamava “decência e ordem”, argumento usado pelo apóstolo Paulo na primeira Carta aos Coríntios, capítulo 14 para tratar de culto. 
Os anos naquela igreja formam minha origem e a herança recebida tem um valor especial. Mas percebi nos primeiros dois anos do ministério na Igreja Batista Sião em Camaçari, 2003 a 2005, que estava cometendo um grande equívoco. Associei minha experiência pessoal ao ideal bíblico de unidade. Tentei uniformizar o culto. Deixei de ouvir a comunidade, respeitar sua identidade que é espontânea e festiva. 
A igreja respondeu de forma surpreendente. O número de adolescentes aumentou a ponto de formar um grupo forte e atuante. Até então sem espaço na celebração. Comecei a perceber que, após o término dos cultos, eles se juntavam à equipe de música e cantavam, dançavam, brincavam com alegria intensa. As crianças vibravam com aquele momento. Entendi, com certo grau de dificuldade, que aquele era o culto da igreja, pelo menos da sua maioria. Estabeleci com o ministro de música, irmão Valdivino Santos Filho, o objetivo de superar aquela diferença e unir os “dois cultos” para representar mais democraticamente o estilo da igreja. 
A começar pelo pastor, a liderança da igreja, os pais, os membros mais maduros, todos devemos investir no diálogo. Com o compromisso de zelar pela centralidade de Deus em tudo, pela sinceridade como marca da adoração, pelos elementos essenciais de uma celebração, a saber: oração, palavra, comunhão, música, dedicação dentre outros. Ouvir o povo, conhecer o contexto local, fazer experiências, abrir a mente. Esses são desafios que encontramos na construção do culto coletivo. 
As vozes das igrejas com cristianismo primitivo precisam ser ouvidas. Ouvimos no texto bíblico sobre a diversidade como característica fundamental do culto. O culto ideal não é o culto individual. O culto ideal não é o culto do pastor. O culto ideal é o culto da eternidade, o culto do milagre que une os diferentes. Os cristãos primitivos estavam mais próximos do culto visto por João e registrado no apocalipse, capítulo 7,9-10. Esse futuro precisa ser antecipado, nosso esforço deve ser nessa direção por obediência ao Cordeiro. 
“Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos; E clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro”. 
Mais uma vez Guilherme Kerr conseguiu traduzir a visão do apóstolo exilado em melodia e poesia irretocável com a qual concluo essa conversa na esperança de ter contribuído para que você também colabore para que o culto na sua igreja local seja a antecipação do culto da eternidade. 

De todas as tribos, povos e raças 
Muitos virão Te louvar 
De tantas culturas, línguas e nações 
No tempo e no espaço, virão Te adorar 

Bendito seja sempre o cordeiro 
Filho de Deus, raiz de Davi 
Bendito seja o Teu santo nome 
Cristo Jesus presente aqui 

Remidos, comprados, grande multidão 
Muitos virão Te louvar 
Povo escolhido, Teu reino e nação 
No tempo e no espaço, virão Te adorar 

E a nós só nos cabe tudo dedicar 
Oferta suave ao Senhor 
Dons e talentos queremos consagrar 
E a vida no Teu altar pra Teu louvor.

domingo, 12 de agosto de 2012

VOU PESCAR COM JOÃO ALEXANDRE


Vou pescar
João Alexandre


Vou pescar!
Parece que acordei de um longo sonho,
Parece até que eu parei no tempo,
Parece até que nada aconteceu!

Vou pescar!
Quem sabe Ele apareça novamente,
Quem sabe volte a me chamar de amigo,
Quem sabe chegue andando sobre as águas,
Quem sabe?

O Homem junto à fogueira convida pra ceia,
para uma conversa sincera!
Brasas queimando na areia
E dentro de mim a lembrança de tê-lo negado,
Por nada!

É a hora da verdade aqui em volta da fogueira
Melhor lançar tudo que é palha no fogo!
Olhe bem dentro dos olhos do Homem que reparte o pão
E me diga se alguém é capaz de enganá-lo?

Tu sabes todas as coisas,
Tu sabes do meu amor por Ti!
Tu sabes todas as coisas,
Tu sabes do meu amor por Ti!

Vou pescar...

domingo, 5 de agosto de 2012

QUEM PODE SER BATIZADO


Os “batistas” somos chamados assim em parte pela fidelidade ao ensino Bíblico acerca do batismo. Compreendemos o batismo bíblico como ordenança constitutiva da igreja, de natureza simbólica, reservado a pessoas adultas que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador pessoal e demonstram testemunho de conversão. É um ritual visível e representativo da experiência interior de salvação espiritual. 
Esta doutrina nos acompanha historicamente. Contudo, apesar desta tradição ainda é possível encontrar no seio de igrejas batistas pessoas confusas sobre quem pode ser batizado. Sobre isso apresentamos algumas considerações no intuito de orientar e fortalecer a igreja: 

1 – DEVE SER BATIZADO quem evidencia consciência plena do seu pecado. O apóstolo Paulo considerava-se o principal dos pecadores (1 TIMÓTEO 1,15); 

2 – DEVE SER BATIZADO quem reconhece pela fé Jesus Cristo com único capaz de salvar os pecadores. Paulo ensinou aos crentes romanos que o Evangelho é poder transformador (ROMANOS 1,16); 

3 – DEVE SER BATIZADO quem apresenta testemunho de conversão pessoal diante da igreja e do mundo. Preparando o caminho de Jesus, João, o Batista, conclamava o povo a produzir “frutos digno de arrependimento” (MATEUS 3,8); 

4 – DEVE SER BATIZADO que demonstra desejo sincero de integrar-se à igreja local para servir a Deus fervorosamente. O Apóstolo dos Gentios esperava dos cristãos de Corinto fossem sempre “abundantes na obra do Senhor” (1 CORINTIOS 15,58). 

Quando o diácono Filipe foi interrogado pelo Eunuco sobre possíveis impedimentos ao seu batismo: “E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (ATOS 8,37). Devemos envidar todos os esforços para impedir a institucionalização da igreja local de criar empecilhos para que crentes sinceros sejam integrados em nossa comunhão pelo batismo. 
Exigências extra-bíblicas impostas a candidatos ao batismo pode levar uma igreja que busca ser bíblica para distante da simplicidade das igrejas neotestamentárias. Longe de nós esteja, por outro lado, o abandono de ideais como o casamento ou ensino da sã doutrina. Mas o fato é que impor tais requisitos tem deixado de reconhecer a incondicionalidade da fé diante de contingências tais como o estado civil. 
QUEM PODE SER BATIZADO? Devem ser batizadas todas as pessoas que evidenciam consciência do seu pecado, reconhecem, pela fé, Jesus Cristo como único capaz de salvar pecadores, apresentam testemunho pessoal de conversão e desejo de integrar-se à igreja local com servo do Deus vivo.

DESCOBRINDO UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO (2)




A educação também estava a serviço da missão. Muito cedo surgiram as primeiras escolas e institutos evangélicos, como consequência da perseguição dos filhos de protestantes nas escolas públicas e católicas. As escolas eram verdadeiros centros de pregação da moral evangélica. E era exatamente o caráter moral do ensino evangélico que levava as pessoas a busca-las para seus filhos. Estes espaços “catequizadores” serviam também para recrutar e selecionar jovens brasileiros para o ministério pastoral. 
Nisto residiu um dos grandes segredos do sucesso destas missões: arregimentação de brasileiros, que eram consagrados para a missão. Esta constatação é apresentada José Nemésio Machado em seu livro Educação Batista no Brasil: uma análise complexa, publicado pela editora do Colégio Batista Brasileiro de São Paulo.
A ênfase denominacional constitui-se numa característica da missão protestante. Cada iniciativa missionária se entendia como pioneira. Steuernagel, no estudo citado, vê aí uma das causas para o divisionismo protestante: “Este denominacionalismo em concorrência criou uma população evangélica flutuante. O rápido avanço evangelístico não conseguia levar o novo crente a uma suficiente consolidação da fé. Assim surgiu uma migração de uma denominação para a outra, de acordo com as ofertas e necessidades dos fiéis”. Sua conclusão neste ponto é que como consequência deste progresso inicial sem um cuidado efetivo, tem-se um conhecimento bíblico superficial e uma ética limitada e importada.
As congregações protestantes se multiplicavam na corrida das muitas denominações em busca de um povo. Cada organização eclesiástica estava desafiada a levar sua missão a cada cidade brasileira. O importante era o crescimento numérico, os resultados estatísticos. O Brasil do ponto de vista protestante era uma terra de “promoção missionária”. Criticamos a cruz e a espada das caravelas católicas, mas reinventamos as cruzadas, passando de perseguidos a caçadores de bruxas. Quem chegou empoeirando os pés no sertão do país acomodou-se na gestão de empresas e dividendos.
Israel Belo de Azevedo em seu livro A Celebração do Indivíduo – a formação do pensamento batista brasileiro afirma que desde sua formação, os batistas desenvolveram um espírito de expansão missionária aliado a uma exacerbação da doutrina da natureza espiritual da missão da Igreja. 
A denominação batista sucumbiu à tentação de reduzir o Evangelho de Jesus meramente ao nível “espiritual” e limitou sua ação eclesiástica no Brasil às bandeiras do conversionismo e do salvacionismo, seguindo o mesmo caminho de outras expressões do protestantismo. Assim, deu-se lugar ao atrofiamento do senso de missão, relegando o engajamento na luta pela justiça social ao mero assistencialismo.
Em consequência, a igreja evangélica, de raiz peregrina, institucionalizou-se. Das congregações às convenções ou sínodos, dos leigos aos oficiais da igreja. Passaram de uma organização simples e funcional a uma estruturação mais adequada ao crescimento rápido e abundante. 
A presença e os investimentos protestantes visavam em primeiro lugar o bem-estar da própria denominação, sua sobrevivência e expansão geográfica. Em contrapartida, a missão protestante relegou a um segundo plano o transpor as barreiras sócio-econômica-culturais que dividem o povo em estratificações e mundos distintos.
Quando a evangelização torna-se refém do poder político, seja estatal ou denominacional, deixa de ser anuncio da liberdade e passa a ser instrumento de escravidão.
O Brasil necessita da obra evangelizadora da igreja de Cristo, do anúncio da esperança, da comunicação e vivência da alegria para quem permanece Nele. Mas para isso, a unidade deve ser a expressão da centralidade de Cristo na vida da igreja. Ademais, é nossa missão, além de anunciar a libertação, praticar e lutar pela justiça.
Com as palavras do Dr. Ágabo Borges, em discurso por ocasião da posse do novo Reitor do Seminário Teológico Batista do Nordeste (Feira de Santana-BA), Pr. Geremias Bento, poderíamos dizer que a unidade é um método evangelístico não em estruturas hierárquicas, mas em organismos de serviço. 
Em tempos de comemoração ou protesto pelos 512 do Brasil urge descobrirmos uma nova evangelização que terá como distintivos a imitação da vida de Jesus, a proclamação do Seu Reino, que já foi inaugurado e a vivência da fé que nos leva a permanecer nEle em unidade com Seu Corpo cuja missão é transformar o Brasil.



FONTES:
ANDRADEE, Caludionor de. Teologia da Educação Cristã, CPAD.
STEUERNAGEL, Valdir. Igreja – Comunidade missionária, ABU.
AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo.
SOUZA, Ágabo Borges de. Cooperação como proposta de unidade no sistema convencional. O Batista Baiano, Ano LXXXI, nº 98.
MACHADO, José Nemésio. Educação Batista no Brasil.

IGREJA E CULTURA - CONTEXTUALZAÇÃO

O missionário é quem melhor encarna o estilo de vida de Jesus que o cristianismo exige, segundo o teólogo e missionário belga José Comblim em seu comentário da carta de Paulo aos Filipenses. Mas precisamos “mensageiros humildes do Evangelho” com procurou a Comissão de Lausanne no Relatório de Willowbank. 
Paulo convida-nos pelo seu exemplo. Consciente da presença demoníaca na idolatria, para ele ídolos eram demônios, como escreveu na primeira carta aos coríntios, em Atenas sua aproximação nos ensina como devemos agir na evangelização. Diante do panteão de deuses da cidade, em vez de começar pela crítica, o apóstolo prefere valorizar o fato de serem os atenienses muito religiosos.
Lourenço Stelio Rega, em abordagem sobre a contextualização na igreja local, vê nessa atitude um modelo de aproximação saudável para igreja e cultura. Encorajado por reflexões como essas busquei na memória muitos significados dos festejos juninos para a formação do nordestino. 
Antes de criticar a idolatria ou tantos outros traços "demoníacos" desta festa procuro sondar por trás dos símbolos, os sentimentos, antes de ver a cultura, sentir com as pessoas. Sendo mais direto, este dia, 23 de junho, véspera de "São João" é um passaporte para o baú de recordações da minha infância. 
Minha avó materna, por causa das complicações de parto fez uma promessa ao santo. Em cumprimento, meu tio, nascido no dia 24, chama-se João. Casa enfeitada, fogueira, dedos queimados com fogos de artifício e ela sentada à tardinha na varanda esperando alguma notícia dos filhos, principalmente dos migrantes, também com nome de santo, José e Antônio. Este último conseguiu com um padrinho a viagem para São Paulo. Ainda era criança quando já contávamos vinte anos sem o reencontro. 
Por isso festa junina e joanina pra mim é tempo de matar a saudade, tempo de celebrar os vínculos familiares que adoçam a canjica, a alegria de assar o milho ou tomar o mingau de tapioca. Tempo de esperança e reconciliação. 
Luiz Gonzaga, cujo centenário é comemorado esse ano, traduziu na música o sentimento de ser nordestino. Na música "Riacho do Navio" ele cristalizou o complexo de emoções que minha família viveu durante décadas por conta da migração provocada pelas desigualdades regionais e do desprezo político intencional amargado. 
O “peixe” quer voltar. Por que o brejinho é ambiente utópico, lugar e não-lugar da realização integral, da identidade que dá significado à vida, lá não se sente frio. Mas o rádio com as notícias das terras civilizadas são um desafio constante a esse encontro com as raízes.

IGREJA E CULTURA - MERGULHO

Existe muita confusão na cosmovisão evangélica predominante em minha formação desde a adolescência, marcadamente asceta, exclusivista e arrogante, mas travestida de uma capa espiritual. Com muito esforço tenho aprendido a refletir como Nelson Bomilcar, músico que participou na década de 70 do movimento de abertura da igreja evangélica para a música brasileira, participando das primeiras equipes do Vencedores Por Cristo. Escrevendo sobre Música e Adoração na Igreja Brasileira ele destacou: 
“É importante lembrar e considerar que elementos divinos estão presentes em todas as culturas, inclusive a indígena e africana, que tanto influenciam a nossa cultura. O que o Diabo sempre tentará é distorcer a criação de Deus, confundindo nossa compreensão do que é lícito usarmos na evangelização e adoração” 
Parte da distorção citada por Bomilcar pode ser notada na expressão “igreja mundana” ou “mundanismo na igreja”. Sem pretender aprofundar o estudo exegético da palavra “mundo” na Bíblia, basta lembrar que ela pode significar: (1) a natureza, a criação, ou universo; 2) a humanidade, as pessoas; ou 3) o sistema de valores satânico. 
A igreja pode viver neste mundo físico onde vivem as pessoas a serem amadas sem ser contaminada com o mal. E mais, deve transformá-lo. Fomos enviados ao mundo em missão para servir. A interação com a cultura será necessária. A igreja é sal da terra e luz do mundo. Na oração sacerdotal Jesus não pediu que fossemos tirados do mundo, mas livres do Maligno e santificados pela Palavra. 
"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus". (Mt 5,13-16) 
"Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. (João 17,15-18) 
Essa parece ser a base bíblica do pensamento que subjaz o Pacto de Lausanne, documento elaborado no Congresso Mundial de Evangelização na cidade suíça em 1974, presidido por John Sttot, e que norteia a identidade evangelical desde então: 
“Uma vez que o homem é criatura de Deus, parte da sua cultura é rica em beleza e bondade; pelo fato de ter o homem caído, toda sua cultura (usos e costumes) está manchada pelo pecado e parte é de inspiração demoníaca”. 
A igreja é desafiada a encarnar a mensagem do Evangelho para comunicá-la num contexto cultural específico. Três atitudes básicas podem ser analisadas: 1) Igreja Esponja - absolve a cultura acriticamente; 2) Igreja Monastério - isola-se alienadamente; 3) Igreja Tempeiro - transforma o ambiente. A fidelidade ao Evangelho orientar o estabelecimento de limites saudáveis para o mergulho. 
O princípio orientador para o “mergulho cultural” da igreja deve ser o mesmo defendido por Bruce Nicholls em sua proposta de “Contextualização: uma teologia do evangelho e cultura”: “O Evangelho nunca é hospede da cultura; mas sempre seu juiz e redentor”. A experiência profunda com o poder redentivo do evangelho nos capacita para a intervenção na cultura com o fim de sermos agentes de sua restauração.

APOCALIPSE – COMO ENTENDER OS SÍMBOLOS


João, o Apóstolo, intentou declarar a fé cristã e manifesta oposição ao paganismo oficial de Roma. Caracteriza-se por uma visão dualista da história: o mundo atual, rebeldia contra Deus e perseguição do Seu povo é fortemente contrastado como mundo vindouro, quanto Deus intervirá para estabelecer definitivamente o seu reino. É uma profecia cunhada no molde apocalíptico e escrita em forma de carta. 
Verner Hoefelmann, respondendo à pergunta “Como entender os símbolos do apocalipse?” afirma que 70% dos versículos contêm alusões ao Antigo Testamento (principalmente Êxodo, Ezequiel e Daniel). As citações nos remetem a momentos de crise na caminhada do povo de Deus. A mensagem deixada assegura que diante das ameaças à sobrevivência no presente, a igreja cristã poderia esperar na intervenção de Deus, que nunca abandonou o seu povo fiel. 
Apocalipse é filho da profecia e tem interesse escatológico. Ocupa-se de um desenvolvimento histórico e anuncia a providência de Deus em ação no presente, com o juízo sobre o mundo e a felicidade sem fim no futuro (HARRINGTON). 
Os primeiros três capítulos são “cartas às sete igrejas”, mensagens proféticas para julgar o estado espiritual das igrejas e incentivando a conservação da fé. Esta parte do livro aproxima-se mais da forma profética do que da apocalíptica. 
A segunda parte do livro pode ser considerado um comentário das palavras de Jesus aos discípulos: “No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33) (HARRINGTON). 
William Hendriksen defende um sistema de interpretação do conhecido como paralelismo progressivo. Anthony A. Hoekema, no livro Milênio: significado e interpretações, explica que, se acordo com este ponto de vista, o livro consiste de sete secções paralelas entre si, cada uma descrevendo a igreja e o mundo desde a época da primeira vinda de Cristo até a da sua segunda vinda. Além das referências a eventos, pessoas e lugares da época em que o livro foi escrito, suas recomendações são válidas para a igreja hoje. 

1ª – 1 a 3 – visão do Cristo ressurreto e glorificado no meio dos sete candeeiros de ouro e a ordem para escrever as sete cartas às sete igrejas da Ásia Menor; 
2ª – 4 a 7 – A visão dos sete selos com os julgamentos divinos sobre o mundo; 
3ª – 8 a 11 – As sete trombetas de julgamento com a igreja vingada e vitoriosa; 
4ª – 12 a 14 – Visão da mulher dando à luz enquanto o dragão espera para devorá-lo, alusão ao nascimento de Jesus e à oposição de Satanás à igreja; 
5ª – 15 a 16 – Descreve as sete taças da ira sobre os que permanecerem impenitentes; 
6ª – 17 a 19 – Apresenta a queda da Babilônia e das bestas, secularismo e impiedade em oposição ao Reino de Deus 
7ª – 20 e 22 – Narra o fim do dragão, o triunfo final de Cristo e da igreja no universo restaurado; 

Existe um grau de progressão escatológica entre as secções (p.ex. 1,7; 6,12-17 e 20,11-15 / 7,15-17 e 21,1-22,5) bem como entre a primeira metade (1-11) com a luta de Cristo e da igreja contra os inimigos na terra, e a segunda (12-22) com um fundo espiritual mais profundo. 
Partimos agora para uma abordagem geral dos símbolos utilizados no texto seguindo Hoefelmann que os organizou em números, animais, aves, nomes e pessoas. 
O número três (3) representa Deus. Quatro (4), as coisas criadas. Sete (4+3) indica a totalidade de um processo. Doze simboliza o povo de Deus da antiga aliança (doze patriarcas) ou da nova (doze apóstolos). 1260 dias (ou 42 meses) é a metade de sete anos. Indica um tempo com prazo certo para acabar. Quando um número é duplicado, multiplicado ou justaposto, intensifica-se o seu sentido. Assim, 24 representa os eleitos das duas alianças. 144.000 (7,4; 14,1 e 3) refere-se à totalidade do povo de Deus na antiga e da nova aliança (12x12x1.000). Este número também pode indicar os mártires, remanescente fiéis de Israel. A virgindade seria uma metáfora para a fidelidade diante do culto à besta, Roma e a religião oficial do império. 666 (13,18) pode indicar uma pretensão de totalidade (aproxima-se de sete três vezes). Uma interpretação é baseada nas letras de Nero César, primeiro imperador a perseguir a igreja, e por isso, representante dos demais. No hebraico, no lugar de numerais, as letras têm valor numérico. 
O cordeiro (13,11) é Jesus, cuja obra realiza a libertação do povo de Deus. O dragão (12;13;16 e 20) é o poder do mal que opera no mundo personificado no diabo. A besta (11;13;14;16;17;19 e 20) são os poderes terrenos que agem como instrumentos do diabo. É uma alusão clara ao Império Romano. A águia (4; 8 e 12) é a mensageira de Deus para anunciar juízo ou proteção divina. 
Babilônia (14;16;17;18) representa aqueles que oprimem o povo de Deus. No tempo de João, a cidade de Roma, também caracterizada como uma meretriz (17 e 19). A mulher perseguida (9;12;14;17) representa o povo de Deus perseguido pelo dragão, do qual nasce o Messias. Jezabel, nicolaistas e Balaão (2) seduzem as igrejas com a acomodação da prática da idolatria. Armagedom (16), palavra hebraica para “Monte Megido”, local de muitas batalhas em Israel, simboliza a batalha final entre as forças divinas e diabólicas, assim como Gogue e Magogue (20). A Nova Jerusalém (21) é um símbolo glorioso para a nova realidade que Deus vai criar no final dos tempos. 
João posiciona-se solidariamente como “irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo” (1,9). Ele recebe ordem do Senhor da igreja para escrever o que vê (1,11). E escreve sobre tanto sobre as coisas presentes como as que acontecerão (1,19). Escreve uma carta de Amos do Noivo para a noiva amada, curada, perdoada (1,4). Escreve com a graça e a paz a ser proclamada a todas as nações que Ele é o Alfa e o Ômega (1,7-9). 
Leia esta carta mais com o coração do que com a mente. Nem todos os detalhes precisam ser entendidos com a razão. Mas todos os símbolos apontam para a mesma direção: por mais fortes que seja os poderes contrários a Deus, a vitória final pertence àquele que criou o mundo e tudo fará para conduzi-lo ao seu alvo. 


FONTES: 
CLOUSE, Robert G. Milênio – significado e interpretações. Campinas, Luz para o Caminho. 1990.b 
CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo, Sinodal, 1996. 
FEE, G.D.; STUART, D. Entendes o que lês? São Paulo, Vida Nova. 1997. 
HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação: a promessa: a realização. São Paulo, Paulinas, 1985. 
SHEDD, Russel P. Escatologia do Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1983. 
SILVA, João Artur Müler da (Editor), 22 perguntas e respostas da fé. São Leopoldo, Sinodal, 2000.