segunda-feira, 25 de junho de 2012

IGREJA E CULTURA - ENTRANHAMENTO



A experiência de pastorear a Primeira Igreja Batista em Catu-BA tem-me permitido (ou exigido) um mergulho em aspectos da cultura nordestina ou um retorno a eles uma vez que minha origem é a zona rural de Itamari-BA. 
Catu nasceu agrícola há 144 anos e tornou-se petrolífera a menos de meio século. Mesmo com o êxodo rural impulsionado por essa nova atividade a cidade preserva forte influência do campo. Posso sentir na cosmovisão dos membros da igreja. 
O processo de favelização da cidade em decorrência dos problemas de planejamento foi bem retratado em matéria do site Retratos de Catu. Contudo a cidade ainda mantém um perfil mais identificado com a cultura do interior do Nordeste do que outras cidades da Região Metropolitana de Salvador, a exemplo de Camaçari-BA, onde pastoreei até dezembro de 2010 a Igreja Batista Sião. 
Nas últimas semanas tenho direcionado algumas leituras sobre a relação entre Evangelho e Cultura e aproveito a época dos festejos juninos, tão característica do Nordeste, para refletir sobre a relação entre igreja e cultura, a necessidade de identificação cultural para uma vivência relevante do evangelho, para uma evangelização com significado. 
Cultura é a transformação da natureza, é todo fazer humano transmitido de geração em geração. Segundo H. Richard Niebuhr, “é o ambiente artificial e secundário que o homem sobrepõe ao natural”. O antropólogo norte-americano Edward Burnett Tylor definiu assim: 
“Cultura, tomada em seu amplo sentido etnológico é todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. 
Neste sentido, cabe ressaltar que a cultura é compreendida numa tríplice dimensão: povo, terra e história. Podemos falar, então, de cultura nordestina como identidade da região que exige da igreja um mergulho e influencia a formação e a prática da igreja no caminho para uma evangelização relevante. 
Luiz Sayão, escrevendo sobre contextualização e tradição na Igreja Pós-Moderna, nos ajuda a reconhecer as características do perfil sociológico dos nossos dias. Ele lembra que o povo brasileiro encara a vida de maneira festiva e gosta de ter prazer naquilo que faz. A casa brasileira não é apenas para repouso, alimentação e abrigo, mas é um lugar moral onde ocorre a realização integral e o desenvolvimento da identidade do brasileiro. 
Reconhecer esses elementos é o começo do processo de “entranhamento” exigido pela missão da igreja a exemplo de Jesus quando teve compaixão do povo, movendo-se nas "entranhas”. Cultura é expressão da vida natural, faz parte da história e da identidade das pessoas. Amar pessoas significa amar sua cultura também.

terça-feira, 19 de junho de 2012

GRAÇA QUE SALVA E SANTIFICA


Qual deve ser a impressão que uma pessoa de fora do convívio da igreja tem da graça de Deus? O que deve imaginar quando ouve a palavra "santificação". Certamente você já ouviu a expressão “lei dos crentes”. O pensamento por trás destas palavras deve ser: uma lei que passamos a cumprir para alcançarmos a salvação. 
A experiência com a graça transmitida pela igreja através de ensinos e práticas parece limitar-se mais a uma separação entre a igreja e o “mundo” (como se a igreja não estivesse no mundo). A preocupação com usos e costumes, moda, cinema, música secular, esporte e lazer na tentativa de deixar clara a diferença entre os "salvos" e os "perdidos". 
A leitura do livro É proibido – o que a Bíblia permite e a igreja proíbe, de Ricardo Gondim, publicado pela Mundo Cristão em 1998, permitiu-me consolidar, ainda no período de formação no Seminário algumas convicções sobre o processo que chamamos santificação. Convido-o a revisar comigo alguns pontos do caítulo que ele dedica à "maravilhosa graça". Esta leitura ajudou-me a fortalecer a certeza de que a graça é responsável pela minha santificação. 
Temos perdido a oportunidade de confrontar a sociedade na qual vivemos, que mede o valor das pessoas pelo desempenho, pela produtividade. As exigências e cobranças advindas de uma vida que elege o profissional ou econômico como fator preponderante projetam-se para a nossa relação com Deus. Muitas vezes a imagem de Deus desenhada por palavras em oração é sem graça, “ele” não ri, sempre exige o cumprimento de uma regra para se agradar dos seus filhos, um “deus” sem ternura. 
Mas, o que é a graça? Gondim nos lembra que a palavra vem do latim gratia ou do grego charis que significam favor imerecido de Deus ao homem. O evangelho é o anuncio da salvação pela graça. Citando Paul Tournier, em Culpa e Graça: 
“Salvação não é uma idéia; é uma pessoa. É o próprio Jesus, o próprio Deus quem se dá”. 
Ainda em referência a um grande pensador cristão, cita A. W. Tozer, em Mais perto de Deus: 
“Graça é o bel-prazer de Deus que o inclina a outorgar benefícios sobre os que nada merecem. É um princípio auto-existente, inerente na natureza divina, e parece-nos uma propensão auto-causada, no sentido de compadecer-se dos desgraçados, dar boas vindas aos réprobos, e favorecer os que estavam sob justa reprovação”. 
Existe de fato um perigo quando a graça é associada ao cumprimento de regras e leis. Gondim recorre a uma referência contemporânea do cristianismo no Brasil, o teólogo católico Leonardo Boff, no livro A graça libertadora no mundo: 
“Sempre que a graça não é reconhecida e nossa santidade é atribuída ao nosso esforço humano, origina-se a ostentação, inflação do eu, soberba que faz a pessoa se colocar sempre em primeiro lugar; surge o artificial, o teatral, as máscaras, a complicação no trato a preocupação neurótica pela própria imagem”. 
Foi essencial para mim refletir sobre a relação entre graça e misericórdia – cordis e miserere – coração que se move com a miséria. Toda graça demonstrada ao pecador é um ato de misericórdia, pois todos os pecadores são miseráveis ou desprezados. 
A graça salva e santifica. O pecador miserável que se arrepende, confessa a sua iniqüidade, reconhece que é impotente passa a ser alvo da ação graciosa de um Deus santo. Mas graça não cobra, capacita. Assim declarou Paulo em sua exposição doutrinária aos Efésios: 
“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, —pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. (Efésios 2,4-10). 
A santificação se dá pela aproximação com Deus em um relacionamento no qual buscamos conhecê-lo cada vez mais e pelo prazer de estar com ele, aprendemos a nos tornar mais parecidos com Jesus. 

A graça se destina àqueles que carecem e buscam esse relacionamento: 

aos humildes 

“Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4,6) 

“cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça” (1 Pedro 5,5b) 

aos que se achegam 

“Porque, se vós vos converterdes ao SENHOR, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos e tornarão a esta terra; porque o SENHOR, vosso Deus, é misericordioso e compassivo e não desviará de vós o rosto, se vos converterdes a ele” (2 Crônicas 30,9) 

aos que pedem 

“Porque o povo habitará em Sião, em Jerusalém; tu não chorarás mais; certamente, se compadecerá de ti, à voz do teu clamor, e, ouvindo-a, te responderá” (Is 30,19) 

àqueles cujo prazer está no Senhor 

“Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração” (Salmo 37,5) 

aos que esperam 

“Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia, para livrar-lhes a alma da morte, e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida” (Salmo 33,18,22) 

aos que ser refugiam no Senhor 

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia; à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades” (Salmo 57,1) 

“O SENHOR é bom, é fortaleza no dia da angústia e conhece os que nele se refugiam” (Na 1,7) 

Deus ama espontaneamente, desinteressadamente, de graça. Deus nos amou primeiro. Por isso podemos amá-lo. Ele quer que tenhamos consciência do nosso pecado, mas nos quer ver livres da culpa irracional que muitas vezes nos impede de mantermos relacionamentos saudáveis, inclusive com Ele. 
A igreja e a Bíblia são providências para que vivamos de acordo com a sua vontade, não devem ser alvos do medo ou da angústia. O que Deus mais quer para os seus filhos é que sejamos semelhantes a Jesus para ouvirmos os ecos da sua voz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 17,5). Isso sim é santificação. Isso é graça.

sábado, 2 de junho de 2012

CANDIDATO DE DEUS?


A leitura dos dois textos devocionais dentro da Campanha “110 dias que impactarão a nação” que abordam especificamente a intercessão pelas autoridades políticas motivaram-me a escrever sobre o tema. O pastor Edvar Gimenes considerou recentemente em seu blog (Orando pela presidenta, seus ministros e secretários) a necessidade de diferenciação entre autoridades e pessoas investidas de autoridade. Ele destaca que o princípio de autoridade ensina que os cargos e funções foram projetados por Deus, seja na família, na igreja, na escola, na cidade, no Estado e defende de forma contundente: “Aqueles que ocupam os espaços onde prevalece o princípio de autoridade estabelecido por Deus, devem ter clareza de que seu papel é agir em favor do povo e não de si mesmos”. 
Depois desta provocação inicial decidi revisitar bases bíblicas que sejam suficientes para confirmar este argumento, de que Deus não escolhe, necessariamente, as pessoas que ocuparão os cargos, mas escolheu o principio de autoridade e sua função na vida pública. 
Começo com o texto principal. 
“Então, dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” 
(NVI - Mateus 22,18-21) 
Quando foi interrogado sobre o dever de pagar impostos, Jesus estabelece o princípio da responsabilidade política do cristão diante cidadania terrena. O imposto era uma obrigação de cada província romana administrada pelo respectivo procurador. Cobrado pelo publicanos, as taxas insidiam tanto sobre os produtos do campo quanto pela renda pessoal, per capita. No referido texto, Jesus se refere à moeda circulante. Ela trazia a insígnia de César, o Imperador. Representava o poder temporal, responsável por direitos e deveres dos cidadãos. Por outro lado, Deus, absoluto em sua autoridade, era o único Senhor a quem se devia adorar. 
Esse princípio foi vivido pela igreja primitiva. Durante o período de perseguição aos cristãos, exercício da vida pública trazia consigo o conflito entre a adoração do Cristo diante do culto ao Imperador. Afirmar que Cristo era o Senhor (Kírius) era negar que o Imperador era um deus (Dívus). 
Outro texto importante é este: 
“Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais... as autoridades que existem foram estabelecidas por Deus... É serva de Deus, agente da justiça” 
(NVI – Romanos 13,1-7) 
O Apóstolo Paulo ensinou à igreja em Roma que a sujeição às autoridades, em sentido genérico. Ele entendia que toda a autoridade era constituída por Deus para o bem das pessoas. Estes cargos ou funções estão a serviço de Deus, independente de quem os ocupe. Seu propósito é a justiça na vida social. O problema é que isso não garante que todos que exerçam autoridade permitir-se-ão agir assim. 
Ainda em um texto paulino, agora escrevendo a Timóteo, temos: 
“...que se façam orações por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade... para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica” 
(NVI – 1 Timóteo 2,1-2) 
Aqui Paulo insiste na recomendação bíblica de orar pelas autoridades com um destaque interessante: da mesma forma como devemos orar “por todos os homens”. Orar pelos reis, da mesma forma como é necessário interceder pelos professores, pais, policiais, líderes comunitários e assim por diante. O objetivo o bem-estar da sociedade. A vida social pode transformar-se num caos sem o princípio da autoridade. Basta ver o espelho de famílias formadas com a ausência de autoridade. 
O apóstolo Pedro confirma este ensino bíblico: 
“Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes... Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei”. 
(NVI – 1 Pe 2,13-17) 
Percebam que a honra ou respeito é devida a todos. Assim como Paulo (Rm 13), Pedro também vê o amor como um dever e os irmãos ocupando lugar de autoridade. Os reis eram “autoridade suprema”. O regime era monárquico. Hoje, no sistema democrático o povo está nesta posição. Por isso, se existe alguém que merece sujeição, principalmente dos representantes eleitos, é o gari, o lavrador, o feirante, o profissional liberal, o empresário. Ou seja, a graça inverte o jogo. 
As pessoas eleitas para governar são os legítimos representantes de quem, de fato, governa: o povo. Em síntese, tanto em Paulo quanto em Pedro, a submissão às autoridades políticas não é ensinada como pacífica e acrítica, mas está ligada à função protetora e não opressora. 
Por submissão a Deus, reconhecemos o lugar ocupado por “César”. Parte da nossa responsabilidade como cidadãos está na observância deste princípio. Contudo, devemos atentar para a diferenciação entre o cargo e a pessoa. Deus não escolhe, necessariamente, as pessoas que ocupação os cargos, mas escolheu o principio de autoridade e sua função na vida pública.