segunda-feira, 26 de junho de 2017

A TEOLOGIA DE MARIA

Maria, mãe de Jesus, é pouco conhecida como salmista. Mas devemos lembrar que depois do anúncio da sua concepção virginal feito pelo anjo Gabriel, ela foi à casa de Isabel, sua parenta, e cantou um hino. Escolhida como a mãe do Salvador, obedeceu à vontade de Deus declarando: “Sou serva do Senhor, que aconteça conforme a tua palavra.” (LUCAS 1:35). O Magnificat, composto por Maria, é o cântico que melhor traduz a esperança messiânica de Israel no tempo do nascimento de Jesus. “Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva.” (LUCAS 1:46-47).

Na continuidade deste salmo conhecemos a “Teologia de Maria” sobre a misericórdia de Deus que revela seu ser agir na história para a salvação da humanidade. “Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem.” (LUCAS 1:48-50). Esta é a motivação de para as ações poderosas de Deus (“porque o Poderoso me fez grandes coisas”) e que o faz digno de toda a adoração. Isto significa que a salvação é uma obra exclusiva de Deus. A participação de qualquer outra criatura retiraria a glória somente a Ele devida e estabeleceria um lugar para outra divindade.

Neste ponto, cristãos católicos afastam-se da fé bíblica e fundamentam-se em uma tradição de origem pagã para ensinar a adoração a Maria como coparticipante da obra redentora do Filho de Deus. Encontramos tal ensino herético no Catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana

"...Assunta aos céus, (Maria) não abandonou este múnus salvífico, mas por sua múltipla intercessão continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna." #969

"...Pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas..." #968


Maria, mulher bem-aventurada, como exemplo de serva de Deus para todas as gerações, conhecia as Escrituras Sagradas e a exigência de adoração ao Único Deus Salvador. "Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador." (ISAÍAS 43:11). Quando o anjo a José sobre a concepção sobrenatural da virgem com quem estava comprometido a casar-se, explicou que o filho que estava sendo gerado seria a encarnação do Salvador. "Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de JESUS, porque ele salvará o povo dos pecados deles." (MATEUS 1:21). Também aos pastores no campo o mesmo anjo enfatizou a mesma verdade. "É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor." (LUCAS 2:11).

Maria ouviu do próprio anjo que ela seria agraciada pelo fato de engravidar de forma milagrosa. Ela sabia que estava gerando o Salvador: “Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim.” (LUCAS 1:31-33). Mas em nenhum lugar as Escrituras oferecem base para cremos que seria necessária uma santificação prévia de Maria como condição para que Jesus nascesse sem pecado. Como explica a nota da Bíblia de Jerusalém, impressa pela editora católica Paulinas: “Na concepção de Jesus, tudo provém do poder do Espírito Santo”.

Os Evangelhos ensinam que o Espírito de Deus é Santo e por seu poder Jesus nasceu Santo. “O anjo respondeu: O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus.” (LUCAS 1:35). A virgindade pessoal de Maria foi um fato secundário. Jesus ter nascido sem a contaminação do pecado de sua mãe deve-se a uma ação sobrenatural de Deus. “Pois nada é impossível para Deus" (LUCAS 1:37). Maria não apenas compreendeu o ser de Deus a partir da sua misericórdia e entregou-se como sua serva, ela creu que a sua salvação pessoal dependia exclusivamente de Deus a quem ela magnificou.

domingo, 25 de junho de 2017

CEIA DO SENHOR - CELEBRANDO O MEMORIAL

O Batismo e a Ceia comunicam o fundamento da Igreja Cristã de modo que se fossem seus únicos atos litúrgicos nada mais era necessário acrescentar em conteúdo e expressão. São as duas Ordenanças do Senhor, mandamentos específicos para serem cumpridos de forma ritual com objetivo de comunicar uma mensagem. Possuem natureza simbólica e são diferentes de sacramentos. A celebração das ordenanças deve zelar pela reflexão e crítica a todas as formas de prática sacramental e sacerdotal.

Em postagem anterior já respondemos à pergunta sobre QUEM PODE SER BATIZADO. Agora perguntamos: qual o significado da Ceia do Senhor?

A Ceia do Senhor é um memorial da morte de Cristo e ao mesmo tempo o seu anúncio. Com a Ceia a igreja comemora e comunica a entrega do corpo e do sangue para nossa vitória sobre a morte. Para os cristãos primitivos o Batismo era o símbolo do início da vitória que o crente alcançara em Cristo; a Ceia era a manifestação dessa vitória. No culto dos dias de hoje deve ser celebrada em clima de proclamação, comunhão, contrição e adoração.

Jesus instituiu a ceia em substituição à pascoa judaica, sendo ele o verdadeiro “Cordeiro pascal” (JOÃO 1:29). Na primeira comemoração da ceia “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; pois isto é o meu sangue, o sangue do pacto, o qual é derramado por muitos para remissão dos pecados. Mas digo-vos que desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de meu Pai” (MATEUS 26:26-29). Desta forma, a Ceia seria um memorial para os crentes e um convite ao arrependimento e à fé para os incrédulos.

O Senhor também afirmou a natureza simbólica desta ordenança. Pão e Vinho não são transformados, mas apenas simbolizam o corpo e o sangue oferecido para a remissão dos pecadores. Este memorial deve ser celebrado para “anunciar a morte do Senhor até que Ele venha” (I CORÍNTIOS 11:26) conservando viva a lembrança da promessa de sua Volta. A participação na Ceia pressupõe o batismo bíblico e exige do crente um autoexame humilde e sincero encarnarmos estes significados em nossa vida e ministério.

A igreja local reúne seus membros para a celebração desta cerimônia com o objetivo de comemorar as bênçãos advindas da morte do Senhor bem como de proclamar a sua volta triunfal. Segundo John H. Davis, pouco mais de duas décadas após a noite da traição, o apóstolo Paulo transmitiu as instruções recebidas do Senhor regulamentou a celebração na igreja de Corinto:– “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor” (I CORÍNTIOS 11:23-29).

Paulo foi diretivo em suas orientações por precisava combater a desordem como ameaça à celebração da Ceia do Senhor naquela igreja local. Os irmãos se reuniam em casas de patronos, mantendo uma estratificação social contrária ao Evangelho reduzindo a um banquete festivo pagão. Por isso, o apóstolo relembra que a Ceia é também uma celebração da comunhão fraternal. “Porventura o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão” (I CORÍNTIOS 10:16-17). Era necessário censurar as práticas pagãs de Corinto para que os crentes voltassem a se aproximar do ideal vivido pela igreja de Jerusalém: “De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas; e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (ATOS 2:41-42).

Por fim, quanto ao tempo, a Ceia Memorial tem abrangência completa em seu significado.

Passado – Relembra a Última Ceia de Jesus com seus discípulos – preparação para o sacrifício do seu corpo e sangue. Um convite a vivermos a memória da sua morte, um chamado à renúncia. Jesus sofreu e morreu por nós. “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (ISAÍAS 53:3). Por isso, somos chamados à mesma vida de amor sacrificial, de entrega em serviço. Devemos andar em amor “como Cristo também vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (EFÉSIOS 5:2).

Presente – Durante a celebração da Ceia, Cristo está presente na pessoa do Espírito Santo. Sua presença é simbolizada pelos elementos da Ceia que falam à consciência do participante. Pão e vinho não são transformados em corpo e sangue, nem mesmo contém em si sua presença. Estes elementos simbolizam, representam: “Fazei isso em memória de mim”. Esta compreensão coloca o acento na prática destas verdades e não em um ritual. Participando da Ceia o irmão é encorajado e viver a contrição, o perdão, a adoração.

Futuro – A igreja primitiva compreendia este memorial como instrumento para anunciar a Volta do Senhor. A Ceia hoje é uma antecipação do banquete messiânico no céu: “Respondeu o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha. Pois eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia” (LUCAS 14:23-24). Isso renova a esperança dos salvos: “E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. Disse-me ainda: Estas são as verdadeiras palavras de Deus” (APOCALIPSE 19:9).

A participação na Ceia Memorial é uma celebração da memória que nos encoraja e capacita a vivermos suas implicações em nossas em nossas decisões e relações de acordo como esta compreensão.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O EVANGELHO ALÉM DAS GRADES

Jesus foi perseguido, preso, julgado injustamente e condenado à morte de cruz. Junto com ele foram executados dois ladrões. Esse é um fato de relevo na história da salvação por ter sido profetizado por Isaías: “porquanto derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu” (ISAÍAS 53:12b). Enquanto um deles escarnecia, o outro caiu em si, quebrantou-se pelos seus pecados e clamou por salvação: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. Imediatamente Jesus prometeu: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (LUCAS 23:42-43). Assim, um condenado foi efetivamente a primeira pessoa salva pelo plano de Deus em Cristo.

Se a cruz não foi capaz de conter a graça de Deus, muito menos as grades o serão. Dos mais de 700 mil presidiários do Brasil, muitos estão com os corações receptivos ao Evangelho, que é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crer” (ROMANOS 1:16). Obviamente não serão salvos pelo simples fato de estarem privados de liberdade. Platão advogava a necessidade de um “sofromistério”, casa em que os homens tomavam juízo. A tradição católica da penitência, disciplina imposta para expiação de pecados, criou a mentalidade da “penitenciária” como lugar onde pecadores são regenerados. Mas, pensando biblicamente, a salvação é recebida pelo arrependido e crente de coração, que respondeu à ação de convencimento do Espírito Santo. “Porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (ROMANOS 10:9).

Este é o fundamento bíblico para a evangelização de presidiários. Para serem salvos eles precisam clamar ao Salvador em quem precisam crer. Mas, “e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (ROMANOS 10:14). Mesmo o Estado, que é laico, reconhece a importância da presença religiosa nos presídios. A Constituição Federal garante o direito à assistência religiosa. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais considera como fator imprescindível para a ressocialização. Diante deste reconhecimento secular, a Igreja de Cristo, deve ir além dos recursos jurídicos, psicológicos e educacionais, proclamando a verdadeira liberdade em Cristo. Quem tem a oportunidade de adentrar aos portões de um presídio pode constatar que aquele lugar representa o limite da capacidade de recuperação que a sociedade pode oferecer. Mas, a Palavra de Deus pode romper as prisões do coração e libertar da escravidão do pecado, origem de toda maldade e violência.

A Primeira Igreja Batista em Divinópolis-MG crê e pratica esta verdade bíblica. Mantém há seis anos 06 anos a Congregação Batista da Liberdade, no Presídio Estadual Floramar, tendo batizado dezenas de presos e realizando semanalmente cultos evangelísticos. A equipe atual (07 membros) está convicta de que recebe de Deus o amor suficiente para continuar firme neste propósito. O sentimento ao estar presente em cada pavilhão é que o lado da grade em que estamos é a única diferença entre pecadores. Precisamos de mais voluntários para ampliação das ações ministeriais entre os funcionários da instituição, a assistência a familiares, o apoio na recuperação de dependentes químicos. Se você tem buscado um ministério para envolver-se na igreja e sente-se chamado para a evangelização de presidiários, junte-se a nós ajude a levar o Evangelho para além das grades.

sábado, 17 de junho de 2017

ANOTAÇÕES CRÍTICAS SOBRE GERHARD VON HAD

A discussão sobre fé e história dentro dos estudos teológicos deverão obrigatoriamente reservar um espaço para Gerhard von Rad (1901-1971). Este teólogo luterano alemão desenvolveu a abordagem da “tradição histórica” para o Antigo Testamento. Ele procurou aplicar a categoria de Heilsgeschichte (“História da Salvação”, a escola teológica de Oscar Cullmann) para a Bíblia Hebraica esforçando-se para ligar as diferentes tradições bíblicas em uma forma coerente.

Seu ponto de partida baseia-se em uma análise de pequenos credos recitados liturgicamente em determinadas festas (Como em Dt. 26. 5-9; 6, 20-24 e Js. 24. 1-13) que constituiriam a articulação teológica mais primitiva e mais característica de Israel. Estas confissões de fé aludem às tradições essenciais que compõem o quadro Gênesis-Josué (patriarcas, êxodo, peregrinação no deserto, a conquista).

Von Rad entendia a Teologia de Israel como uma interpretação narrativa do que havia ocorrido no passado de Israel, uma narração que, todavia, possui força decisiva para as gerações futuras. Por essa compreensão, a Teologia do Antigo Testamento seria o resultado de um processo contínuo de “tradição”, em que cada sucessiva geração israelita recita o relato, mas o faz incorporando novos materiais e reformulando, de maneira que o antigo relato pode seguir sendo pertinente para as novas circunstâncias e as novas crises. A Bíblia teria surgido, assim, da prática da adoração, como testemunho. Cada geração adaptava e estendia essas tradições aplicando-as a novas circunstâncias históricas.

No Antigo Testamento não haveria “bruta facta” em absoluto e sim interpretação de fé. Gerhard Von Rad elaborou esse argumento quando contrastou as versões da história de Israel de acordo com a pesquisa crítica moderna e aquela definida pela fé de Israel. A experiência de fé do narrador é histórica e seus relatos são fundamentados numa história real. Mesmo que a sequência dos relatos não coincida com o quadro organizado pelo conhecimento histórico na perspectiva científica, isso não contraria a realidade da revelação divina. O fato estaria localizado no agir de Deus ainda que não seja possível saber como.

Apesar da valorização da confissão de fé, que representa um referencial indispensável para a teologia, Von Rad exagerou na ênfase das declarações querigmáticas de Israel desprezando a historicidade dos fatos que as geraram. Mas, sem dúvida, sua insistência em que a Bíblia Hebraica seja entendida no contexto da vida religiosa do Antigo Israel afirmou-se como uma contribuição decisiva para os estudos posteriores.

Von Rad acabou por negar o fundamento histórico da confissão de fé que Israel. Para ele não havia qualquer relação entre a crença pregada por Israel e a realidade objetiva da sua história como povo. Dessa forma, o Antigo Testamento passa a ser uma narrativa religiosa, um emaranhado de confissões de fé que compõe a história de uma religião.


REFERÊNCIAS

SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo testamento. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1994.

HASEL, Gerhard F. Teologia do Antigo Testamento: questões fundamentais no debate atual. Rio de Janeiro, RJ: JUERP, 1992, 121 p.

RELAÇÃO ENTRE FÉ E HISTÓRIA NA TEOLOGIA

A relação entre fé e história na Teologia é uma questão fundamental. Sem considerar a fé, o teólogo reduz a teologia a uma filosofia e, deixando de considerar a história, ele perde sua credibilidade.

Segundo Gerhard F. Hasel em sua Teologia do Antigo Testamento, “Deus agiu na história”. Este é um fato, ao mesmo tempo, histórico e doutrinário. A literatura do Antigo Testamento registra uma interpretação de acontecimentos reais, representando parcial ou exageradamente o significado do evento. Segue-se assim a distinção entre dicta, declarações bíblicas, e facta, fatos históricos. A Bíblia não faz separação. Dicta depende de facta. O objeto de uma teologia bíblica é facta dicta.

O conhecimento da História é racional e está limitado à dimensão temporal-espacial. Por outro lado, o conhecimento da fé, no dizer do Dr. Merval Rosa, é transracional, nem racional nem irracional, não sendo determinada por eventos históricos, mas por Deus, o “Senhor da História”. Esse pressuposto levava os autores do Antigo Testamento a utilizar tradições que consideravam históricas porque, para eles, fato e interpretação formavam uma unidade. Estavam convencidos da veracidade do que ocorrera e por isso afirmavam sua doutrina.

A confiança na veracidade do acontecimento testemunhado pressupõe o ato de fé a ser declarado bem como seu conteúdo. Deus está se revelando na história e o contexto dessa revelação cria a tradição posteriormente fixada por escrito. O significado original da intervenção de Deus na História está no contexto de sua ocorrência, base da tradição a ser transmitida.

Enquanto o Método Histórico-Crítico propõe uma teologia que seja meramente “linguagem dos fatos”, a Teologia do Antigo Testamento (inerente à literatura) apresenta o “fato da linguagem” que mantém a unidade entre evento e palavra. Mesmo que a operação de Deus na História de Israel não esteja limitada a fatos – bruta facta.

Hasel conclui propondo que o método adequado para a Teologia do Antigo Testamento deve partir do pressuposto de Deus agindo na História de Israel. Será necessário também considerar a transmissão das suas confissões como fruto de uma concepção da realidade integral que preserva a unidade entre fato e significado.

CONCEITO DE TEOLOGIA

Em postagem anterior defendi que o pastor deve estudar teologia. Agora convido o leitor a continuar a reflexão na tentativa de definirmos o que é teologia e por que existem várias teologias. Para estudar teologia o pastor deverá aprender a definir conceitos e exercitar-se na caracterização das diversas variações do fazer teológico.

A palavra "teologia" é de origem grega e constituída de dois termos específicos: 'teo', Deus, e 'logia', estudo. Uma tradução literal comunica simplesmente “o estudo de Deus”. Ficar apenas nessa explicação é reduzir o sentido e gerar uma definição que inviabiliza a estruturação da teologia enquanto ciência.

Uma vez que Deus não pode ser objeto de investigação científica, a pesquisa teológica deve ser direcionada para a fé em Deus. Esta fé está fundamentada na revelação de Deus registrada nas Escrituras, espelhada na personalidade humana e experimentada na historia da igreja. A teologia, portanto, em sua acepção cristã, é o estudo da revelação que Deus fez de si mesmo, conforme registrada das Escrituras Sagradas, centrada na pessoa de Cristo, compreendida a partir da fé e relacionada com a experiência histórica da Igreja e o contexto atual.

Assim a teologia pode se posicionar academicamente ao lado das ciências humanas para estudar o fenômeno religioso. Deve ser considerada, no entanto, a diferença principal entre estas áreas do conhecimento. Merval Rosa propõe que essa diferenciação está no ponto de partida. A Teologia parte da fé, a Filosofia, da razão, e as Ciências da Natureza, da experiência empírica.
Ter a fé como instrumento não faz a teologia ser irracional. Ocorre que o fazer teológico não pode ser enquadrado na categoria da razão. A teologia é trans-racional. Usa a razão à luz da fé, usa a fé como uma referência que transcende a razão, um ponto fora da circunferência. No cristianismo, a definição clássica de teologia foi apresentada por Agostinho: “theologia est fides quaerens intellectum”, teologia é a fé que procura compreender a si mesma e fazer-se compreender pelos outros.

terça-feira, 30 de maio de 2017

GOVERNO DE CORRUPTORES

As delações e operações controladas da Política Federal envolvendo os irmãos Wesley e Joesley Batista revelaram que o Brasil nunca se libertou do jugo imposto pelo Governo de Corruptores. Empresários enriquecidos por favorecimento do Estado em troca de pagamentos com o dinheiro do povo a políticos que ambicionam a perpetuação no poder. Empreendendo com recursos públicos, eles elegem candidatos, escolhem ministros e interferem na governança. A corrupção política é transformada em investimento empresarial e até o BNDES transforma-se em banco privado. O que um político corrupto condenado chega a receber por uma semana de “silêncio”, a maioria dos trabalhadores nunca conseguirão com toda uma vida de trabalho honesto. Empresas criam departamentos de propina para interferirem no resultado de eleições e garantirem o retorno em forma de empréstimos, obras superfaturadas ou mudanças na legislação fiscal. Esse é o velho patrimonialismo herdado do Brasil Colônia que ganhou as cores da farsa democrática permitindo que empresários gananciosos e políticos sem ética acumulem cada vez mais riqueza e controlem de forma cada vez mais profunda a máquina estatal em benefício próprio. Mas, os corruptores não podem ser tratados como fonte de verdade e por isso receberem benefícios inaceitáveis. Não podem ser considerados como vítimas do sistema que eles mesmos sustentam. Não podem ser absolvidos dos crimes praticados por quadrilhas que eles mesmos chefiam. O Ministério Público não deve permitir que os acordos de colaboração se transformem em instrumentos de impunidade propalando a noção de que se o crime for praticado pelos mais ricos e acontecer em esperas mais altas do poder, então, será compensatório.