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A CENTRALIDADE DE DEUS NO CULTO CRISTÃO



O Antigo Testamento estabelece a centralidade de Deus no culto. Esse ensino radicado na experiência histórica dos judeus ultrapassa os limites da sua religião e influencia decisivamente o Cristianismo. Nada obstante o culto cristão ser centrado no “evento” Cristo, o temor a Deus ao redor do qual orbita a celebração cúltica foi preservado e intensificado no Novo Testamento. 
Em Hebreus 12 encontramos impresso o sentimento de temor característico da adoração no Antigo Testamento. A partir do verso 18, descrevendo a epifania do Sinai, comparado a um espetáculo vulcânico, o autor da epístola informa que até Moisés ficou apavorado. A seguir apresenta a realidade espiritual da igreja e conclui convocando os destinatários a uma atitude de reverência e temor que supera a vivência do povo da Antiga Aliança: “Ora, esta palavra: Ainda uma vez por todas significa a remoção dessas coisas abaladas, como tinham sido feitas, para que as coisas que não são abaladas permaneçam. Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor... por que Deus é um fogo consumidor” (27-29). 
O teólogo protestante alemão Rudolf Otto constatou em seu estudo comparado das religiões que a experiência do sagrado envolve o sentimento de pavor, mysterium tremendum, em oposição ao mysterium fascinans, que atrai o homem para um relacionamento mais profundo e intenso. É como se Deus produzisse em nós atração e repulsão simultaneamente. Na medida em que somos atraídos por uma força misteriosa, outra força igualmente misteriosa nos leva a fugir, como se nele houvesse algo que nos amedronta e apavora. O homem tem um sentimento de profunda nulidade diante dEle, sente-se não ser mais do que uma criatura, com comentou o professor Merval Rosa. 
A diferença fundamental do Novo Testamento está na perfeição do sacrifício de Cristo que torna a vida cristã “um reino inabalável”, mas que igualmente exige “reverencia e temor”. Na igreja cristã, a centralidade de Deus e o temor a Ele devido devem se manifestar numa prática litúrgica coerente com esta compreensão. Esse temor não se traduz em medo de aniquilamento apenas, mas em compromisso radical, em levar Deus a sério, tÊ-lo diante dos olhos. Nas palavras do autor aos Hebreus: cultuar “fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (12,2). Saber ser aceito por Deus através do sacrifício de Cristo e saber que isso exige tudo. Culto público sem esse culto pessoal é simplesmente festa da carne. 
Lembro-me da experiência de um colega no seminário que foi procurar seu mentor, um pastor muito experiente, pois estava experimentando um temor muito intenso ao pregar. Isso estava interferindo em seu desempenho, deixava-o paralisado, incomodado. O seu pastor de pronto respondeu: “até hoje sinto-me assim; no dia em que você deixar de sentir, deixe de pregar”. 
Lamentavelmente a igreja evangélica tem permitido a vulgarização do culto ou, pelo menos, a redução da sua profundidade, trocando reverencia por entretenimento, deixando de adorar a Deus para satisfazer o homem, abandonando teocentrismo e adotando o antropocentrismo. 
E antes que o leitor se canse rejeitando nesse texto o que considerar lugar comum ou clichê pastoral, insisto que não podemos “separar o que Deus uniu”, o culto da vida, a celebração pública da devoção pessoal. Toda crítica que se levante sobre essa liturgia formatada pelo mercado gospel ainda é insuficiente. Na prática do ministério tenho identificado uma regra: se a comunidade não é capaz de experimentar a riqueza e a profundidade de uma celebração coletiva plena e abundante da presença tremenda e fascinante de Deus, então devo constatar que a vida espiritual, familiar e diária é pobre e rasa. 
Voltando para a influência do Antigo Testamento no culto da igreja cristã, chegamos a Abel. Com ele testemunhamos o primeiro sacrifício registrado na Bíblia dentro do modelo cúltico que se estabeleceu desde a criação até o êxodo, simbolizado pela figura do altar. Consideramos dois elementos daquele culto como referenciais norteadores para toda a Bíblia e, por isso, necessários para nossa prática litúrgica hoje. 
Um culto comprometido com a excelência. Em Gênesis 4,4 está registrada a preocupação de Abel em trazer para o altar as “primícias”, a gordura das primeiras crias do seu rebanho, o primeiro cordeirinho, uma oferta mais excelente. A Epístola aos Hebreus justifica a inclusão de Abel na galeria dos “heróis da fé” com a nota: “Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente oferta” (Hb 11.4). Deus mesmo promulgou este princípio para o culto ao rejeitar a atitude relaxada, preguiçosa e leviana do seu povo através do profeta Malaquias: “Pois quando ofereceis em sacrifício um animal cego, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou o doente, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; terá ele agrado em ti? Ou aceitará ele a tua pessoa? diz o Senhor dos exércitos” (Ml 1.8) 
O pastor Josué Salgado relacionou essa atitude no culto com uma postura diante da vida: “Por trás de uma oferta e um culto de má qualidade, há sempre um adorador deficiente e rejeitado por Deus!”. 
Um culto comprometido com a integridade. Na história de Abel fica evidente esse ensino sobre adoração: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn 4,4). Primeiro Deus aceita o ofertante para depois aceitar a oferta. A formação do povo de Israel na adoração mostra que o caminho para essa integralidade é da devoção pessoal para a celebração pública, do secreto do quarto para a festa da comunidade. Como disse certa irmã idosa aos seus netos, de maneira simples e direta: “Encha a vida de Deus durante a semana e vá para o templo no domingo completar”. A celebração coletiva é oportunidade de completar e transbordar da vida de Deus experimentada no dia-a-dia. 
Aprendemos assim com Antigo Testamento que Deus está no centro do culto da vida e esta vivência individual se expressa coletivamente na congregação. Sem o temor a Deus não é possível cultuar. Para servirmos a Deus de modo agradável mediante a graça que recebemos em Cristo devemos prestar nosso serviço cúltico a Deus, considerando-o como o centro de nossas vidas, como uma chama viva que queima nossos corações.

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