sexta-feira, 30 de março de 2012

COMO O CRISTÃO DEVE ENFRENTAR A MORTE

Como o cristão deve enfrentar a morte?

A morte, consequência inevitável do pecado, acontece todos os dias, no processo de morrer, o envelhecimento. Mesmo assim, seu ponto final sempre foi envolvida de medo e curiosidade. Fundamentado na resposta bíblica, o cristão pode enfrenta-la com dignidade e esperança, crescendo em santificação enquanto aguarda o encontro final com Cristo.
A escatologia bíblica ensina que o evento Cristo, encarnação, paixão e ressurreição, inaugurou o tempo da graça. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5,17). O fim já fora antecipado embora ainda não experimentamos completamente o Reino de Deus. A igreja aguarda sua parousia ou a segunda vinda em um futuro desconhecido. Mas já vivemos o fim.
A morte sempre ocupou lugar central na história. A civilização egípcia buscava significado crendo e vivendo em torno da imortalidade. Por isso, As pirâmides do Gisé, sarcófagos dos faraós, reis cultuados como deuses, apontam para o céu. Semelhantemente os Zigurates da Babilônia (como a torre de Babel, Gn 11). Hoje, a clonagem humana é uma resposta da ciência contemporânea para o problema. Nesse caminho, o investimento em criogenia revela esta busca humana em nossos dias.
A criogenia é uma técnica de conservação de corpos e existe desde a década de 60. Há pelo menos mil pessoas à espera do momento de serem preservados através de nitrogênio líquido, imediatamente após a morte. Além da ciência, a questão mobiliza a justiça e a economia. Segundo reportagem da revista Veja, “Criogenia – Gelado, mas rico” (1º Fevereiro de 2006), existe inclusive uma tabela. Cabeça – 80 mil dólares, corpo inteiro - 100 a 165 mil, (gato e cão) – US$6. Na década de 70 uma empresa de criogenia faliu e os corpos de nove pessoas foram sepultados.
Nossa Declaração Doutrinária afirma que “todos os homens são marcados pela finitude, de vez que, em consequência do pecado, a morte se estende a todos (...) Com a morte está definido o destino eterno de cada homem”.
A morte na Bíblia é a trágica consequência do pecado. Em Adão, todos morremos espiritualmente, e, por isso, morreremos fisicamente. Em Gênesis 2,17 foi prevista a consequência. Em 3,19 foi declarada a sentença: “até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”.
Mas, Cristo bebeu o cálice da ira divina sobre o pecado e levou sobre si a nossa condenação. “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele”, conforme Isaías 53,5. Ele é o “novo Adão”. É o pensamento teológico paulino: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Rm 5,17).
Em Cristo encontramos uma nova qualidade de vida terrena no presente. Já fomos “sepultados”, agora podemos desfrutar de “novidade de vida”. A ressurreição de Cristo é também nossa (Rm 6:4-5). Isso nos garante a esperança de vida transformada, incorruptível: “Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Co 15: 51-52).
Esta nova dimensão para a existência nos leva a uma vida voltada para os valores do reino de Deus hoje. Escrevendo aos colossenses Paulo relacionou a nova existência com um compromisso elevado: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3:1-2). E além do pensamento, a ação, uma busca pela santificação como estilo de vida para Deus: “...renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo" (Tt 2:12-13).

QUERO PODER "PERMANECER"

PERMANECER
Jorge Rehder/Nelson Bomilcar

Quando na dor, na tentação, 
Quero em tuas mãos agarrar 
Para que não venha a me desviar... 

Quero poder permanecer 
Sempre nos teus caminhos 
Para firmar meus pés em ti, 
Ó Autor da vida, meu Senhor!


quarta-feira, 28 de março de 2012

A FÉ EM BUSCA DA UNIDADE

O divisionismo cristão é um escândalo. Além da divisão principal católico-protestante temos internamente no protestantismo um número incontável de divisões. Lutero errou em ter colocado a Bíblia na mão do povo! Exclamou um bispo católico  quando debatia com um pastor protestante. Este respondeu: E as divisões do cristianismo anteriores às reformas religiosas do século XVI? Mas, a leitura do Novo Testamento permite constatar que a raiz dessa separação nasceu junto com igreja. 
Por isso o ensino apostólico incluía na agenda um clamor pela unidade. Em I Coríntios 12,18-20; 25-26, Paulo usa a analogia do corpo humano com o propósito de ensinar sobre o uso dos dons espirituais e a cerca da unidade na diversidade. A unidade orgânica da igreja é formada pelo Espírito a partir dos muitos e diferentes membros. A partir desta unidade e na dependência mútua, a comunidade de fé vive em harmonia e pode cuidar-se mutuamente, convivendo como as diferenças e superando os conflitos. 
Os evangélicos no Brasil receberam historicamente diversas influências tanto europeias quanto norte-americanas. A teologia marcada salvacionismo, conversionismo e fundamentalismo cooperou para uma postura anticatólica. Internamente, dificultou construção de um senso de corpo. 
Alguns elementos marcantes podem expressar a fé evangélica: salvação pela graça por meio da fé, autoridade das Escrituras, Sacerdócio Universal, separação entre a Igreja e o Estado, liberdade de consciência. Mesmo com esta identidade comum a igreja evangélica brasileira é um mosaico, cada grupo interpretando e reinventando estas características com todos os sabores locais disponíveis. 
Como alcançar a unidade em meio à diversidade e ainda manter firme a identidade? A fé que busca a unidade traz consigo algumas características que passaremos a apresentar sinteticamente. 
A fé que zela. 
Em meio à diversidade é necessário cultivar a piedade pessoal, zelar pela sã doutrina bíblica e fazer boas obras. Entendendo sempre que o mistério da fé não é extático nem estático. Deus se revela na caminhada da fé. E neste caminho o conhecimento comunitário enriquecerá a experiência pessoal. A busca individual deverá desaguar no mergulho de fé na vida do povo de Deus, em oração e ação, conhecendo o que crê e crendo para conhecer. Crer fazendo viva a fé e fazer para que a fé seja viva. Esta será a porta de entrada para o serviço em comunhão. 
A fé que pensa. 
Diante da riqueza que é a relação entre a experiência pessoal e a vivência comunitária, a busca do equilíbrio é fundamental. Crer é também pensar (STTOT, 1978). A fé não dispensa a mente. O nosso zelo deve ser dirigido pelo conhecimento enquanto que o conhecimento deve ser inflamado pela fé. Não podemos nos entregar às experiências pessoais e comunitárias sem reflexão. Não devemos agir como fanáticos nem paralisar a ação para pensar. Ação e pensamento caminham juntos. Quando isso for uma realidade na vida da igreja no Brasil, evitaremos o preconceito que nos isola e anestesia. 
A fé que une. 
Unidade diferencia-se absolutamente de uniformidade. É indesejável uma igreja uniforme, sem o colorido e a alegria da diferença. A união considera o outro, respeita e valoriza. Unidade não é igualdade, é união na diversidade. Por isso devemos considerar a diversidade. Porém, é necessária a busca zelosa e refletida da identidade. 
A fé em busca da unidade é zelosa e reflexiva. Mas para a concretização deste sonho alguns expedientes são essenciais. Uma oportunidade rica e frutífera é a vivência acadêmica e comunitária compartilhada. Dentro de cada grupo e entre todos eles deverá caber sempre o espaço para o debate, o confronto saudável. Além disso, a troca da prática pastoral, as experiências de intervenção social e política. Intercambiar a vida de cada igreja a começar pelos seus líderes. 
Lutero não errou em ter colocado a Bíblia na mão do povo. O livre acesso e a livre interpretação das Escrituras deve ser orientado pela compreensão a essência da mensagem cristã, o amor a Deus e ao próximo. O zelo e a reflexão nos levará à conclusão a que chegou o teólogo luterano Peter Meiderlin: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; e em ambas as coisas, a caridade”.

terça-feira, 27 de março de 2012

QUANDO SE ESTÁ SÓ, OU COM NELSON BOMILCAR

QUANDO SE ESTÁ SÓ
Sergio Pimenta

Quando se está só, o silêncio é mais profundo,
As noites são mais longas, o frio mais intenso;
E até a própria sombra parece estar mais junta,
Como se soubesse quando se está só.

Quando se está só, um grito é desespero,
Sussurro é loucura, o estalo mete medo;
E a mão forte aparece e está sempre nos sonhos,
Eternos pesadelos quando se está só.

Quando se está só, se está porque deseja,
Pois ele com certeza não foge de ninguém;
Deus está sempre perto, amigo, abraço aberto,
Convida a ir com ele pra não mais estar só.

Pra não mais estar só.



sábado, 24 de março de 2012

RAZÕES PARA EVANGELIZAR

Evangelizar é anunciar o Evangelho. A evangelização vai além de métodos ou resultados. Evangelização é definida pela fidelidade ao Evangelho. Apresentamos a seguir razões para evangelizar que podem ser fartamente fundamentadas na Bíblia. Nesta lista referenciamos um versículos para cada argumento: 
1—A ordem suprema de Jesus. Revestido de toda autoridade Jesus ordenou a evangelização para toda a igreja: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). 
2—A santa vocação da igreja. Conquanto todos tenham sido comissionados a evangelizar, há na igreja evangelistas dados como dons à Igreja, vocacionados para um ministério específico: “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (1 Co 9,16). 
3—A capacitação do Espírito. O poder do Espírito Santo capacita todos os crentes para a obra da evangelização: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1,8). 
4—O privilégio de ser embaixador. Representamos o reino de Deus e somos seus porta-vozes comunicando a boa notícia da reconciliação: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 7,20). 
5—As necessidades das pessoas. Assim como Jesus, estamos cercados de pessoas necessitadas afetiva, social e espiritualmente: “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7,22). 
6—O destino eterno dos perdidos. Cada crente é um atalaia e deve publicar que o destino final dos impenitentes é a condenação dos próprios pecados: “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna...Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (João 3,15 e 18). 
7—Oportunidade de provar o amor. Comunicar a alegria da salvação é uma expressão do amor derramado na vida do crente: “Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus” (2 Co 4,5). 
Outros motivos poderiam ser expostos mas estes já são suficientes para encorajar a igreja a permanecer firme em ser fervor missionário.

sexta-feira, 23 de março de 2012

APOCALIPSE – A BELEZA DA LINGUAGEM


“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo” (Ap 1,1). Este é o título do último livro da Bíblia Cristã em sua forma mais extensa. No grego Apokalypsis significa “revelação”. No latim, Revelatio traz o sentido de expor à vista, uma verdade oculta agora descoberta. 


O livro foi escrito entre os anos 70 e 90 d.C. A tradição atribui à pena de João, o discípulo amado, que encontrava-se exilado na ilha de Patmos, por ocasião da perseguição movida pelo Imperador Domiciano, ou “segundo Nero”, como era apelidado pelos cristãos da época devido à semelhança dos atos de crueldade por ele cometido. Este é o testemunho de Inácio (antes de 135 d.C), Irineu (180) e do Cânon Muratoriano (final do século II). Mas o texto provavelmente tenha sido gestado pela “escola joanina”, grupo dos discípulos, no seio do qual teria crescido e se desenvolvido a tradição joanina. Foi escrito com uma crise em vista e lido com acontecimentos históricos de natureza concreta. 


O ano era provavelmente 96, Domiciano que exigia veneração como deus. A própria Roma já havia sido adorarada no culto à Dea Roma. As comunidades cristãs entendiam o culto ao imperador (Kyrios Kaisar – César é o Senhor) como idolatria e foram perseguidas sob a acusação de deslealdade política. Harrington destaca o objetivo diante dessa crise: “manter viva a esperança em Deus e lembrar aos homens que Deus detém o controle da história”. 


No período da ditadura militar no Brasil (1964-1979) a arte foi um instrumento de resistência para a sociedade. A música, forma artística mais popular, contém “mensagens cifradas”, que serviam de correspondência entre artistas, intelectuais e políticos perseguidos pelo regime. A letra da canção "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos" é uma homenagem a Caetano Veloso feita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos em solidariedade por seu exílio, em Londres, para onde fora deportado em 1969 pela Ditadura Militar. A música “O Bêbado e o Equilibrista”, composta por Aldir Blanc e João Bosco, no mesmo período, para o “irmão do Henfil”, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henrique de Souza, que estava no exílio é outro exemplo. 


A linguagem aproxima-se do gênero literário presente no Antigo testamento, sobretudo em Ezequiel e Daniel. É literatura selada, como observa Harrington em sua “Chave para a Bíblia”. O texto tem como destinatário um público que entendia da simbologia apocalíptica, familiarizado com estes escritos. A dificuldade de interpretação é atenuada pela relação com a história. Isso ajuda a explicar o uso da linguagem figurada. 


Mas, embora tenha sido dirigido para cristãos do seu tempo, podemos perceber nele uma mensagem a gerações futuras. A interpretação puramente preterista é insuficiente para uma abordagem coerente deste texto. Oscar Cullmann em “A formação do Novo Testamento” lembra que a diferença dos apocalipses judeus para o joanino está no conceito de tempo. O centro da história, para os cristãos, está antecipado em Jesus Cristo. “Todo tempo presente já é tempo do fim, se bem que o cumprimento cabal ainda esteja porvir... Esta é a chave da compreensão de todo o livro”.


FONTES:
CLOUSE, Robert G. Milênio – significado e interpretações. Campinas, Luz para o Caminho. 1990.b
CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopoldo, Sinodal, 1996.
FEE, G.D.; STUART, D. Entendes o que lês? São Paulo, Vida Nova. 1997.
HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação: a promessa: a realização. São Paulo, Paulinas, 1985.
SHEDD, Russel P. Escatologia do Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova, 1983.
SILVA, João Artur Müler da (Editor), 22 perguntas e respostas da fé. São Leopoldo, Sinodal, 2000.

quinta-feira, 22 de março de 2012

SERGIO PIMENTA PERGUNTA: O QUE ME FAZ VIVER?


O QUE ME FAZ VIVER

Sergio Pimenta

O que me faz viver é tão intenso
Que até me perco se explicar
O que me faz viver é tão profundo
Mas me vê no mundo
No singular

O que me faz viver
Vai além da lógica
É maior do que a amplitude cósmica
Que o meu pensar

O que me faz viver
Eu sei, é isto
De Jesus, o Cristo
O amar

O que me faz viver
Eu sei, é isto
De Jesus, o Cristo
O amar

O que me faz viver
Vai além da lógica
É maior do que a amplitude cósmica
Que o meu pensar

O que me faz viver
Eu sei, é isto
De Jesus, o Cristo
O amar

O que me faz viver
Eu sei, é isto
De Jesus, O Cristo
O amar





quarta-feira, 21 de março de 2012

A CONFISSÃO DE FÉ DA IGREJA

Apesar de ser a fé pessoal é necessária para a igreja uma confissão coletiva. Por certo a fé é atitude subjetiva, fundada na existência do indivíduo, fruto de sua experiência com a vida, é incondicional. É mais o que se vive e menos o que se diz. Em seu livro a dinâmica da fé, Paul Tillich conceitua fé “como estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente”.
Mas fé também é credo, fórmula doutrinária, símbolo, declaração de uma comunidade, o consenso acerca do que se crê expresso numa formulação inteligível e comunicável. Uma confissão identifica o grupo que a ela aderi e traduz sua experiência histórica, esclarece suas características, vínculos e posições. A igreja marcha para onde sua fé orienta. Sua declaração doutrinária revela sua trajetória e define seus rumos.
Apesar do desgaste, dos abusos, dos reducionismos que tem enfrentado, a fé cristã renova-se de maneira extraordinária. Será sempre necessária, no entanto, uma revisão dos fundamentos para mantermos uma postura crítica diante dos incrementos religiosos, dos vícios institucionais acrescentados a esta declaração em seu percurso.
Por ser o centro da história, Jesus é alvo de múltiplos olhares. Para os judeus, um simples rabino do primeiro século. Para os mulçumanos, apenas um profeta. Para os acadêmicos, um humanista. Para os espíritas, um iluminado. Para os ateus, no máximo um referencial ético. Mas a igreja o reconhece como único e suficiente Salvador e Senhor.
A síntese mais concisa e mais perfeita da fé cristã é esta: JESUS CRISTO. Esta é a confissão mais simples e mais livre a ser adotada pela igreja cristã. Quando a pronunciamos inserimo-nos numa tradição de fé que atravessou a história entrando no terceiro milênio em franca expansão.
A pergunta feita ao batizando como parte da celebração do batismo, sua pública profissão de fé, deve continuar a mesma: você crê em Jesus Cristo? Esta oportunidade privilegiada ensina ao catecúmeno que confissão de fé é mais o perfume a ser exalado na vida (2 Coríntios 2,15), é mais uma carta viva a ser lida nas ruas (2 Coríntios 3,3) do que um documento convencionado a ser decorado e repetido solenemente. Eu creio alí deve ser sinônimo de eu obedeço, eu sigo, eu vivo.
Jesus, nome pessoal, é a forma grega da palavra hebraica Josué, “Javé é a Salvação”. É a Segunda Pessoa da Trindade Santa, o Filho de Deus, Salvador da humanidade, Deus encarnado. A igreja sempre afirmou que nenhuma outra pessoa era capaz de salvar. A salvação da humanidade está condicionada à confissão do nome de Jesus. Ao afirmar Jesus a pessoa já declara que “Deus é a salvação”.
Pedro declarou ao coxo na porta do templo: Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda” (Atos 3,6). Depois, em defesa diante dos seus acusadores, o mesmo apóstolo declarou,: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4,12). Os apóstolos enfrentaram a oposição dos líderes judeus com a autoridade de quem havia convivido com Jesus. A experiência da salvação inicia o salvo imediatamente no serviço do Reino, pois o seu Salvador passa a ser, automaticamente o Senhor a quem deve a vida.
Cristo, ungido, forma grega da palavra hebraica Messias. Título oficial de Jesus. Denota que Jesus foi credenciado como o Salvador dos homens, qualificando-o para esta função. Isaías profetizou: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Isaías 61,1 - RA).
Esse título revela o senhorio de Jesus, pois Deus o ungiu como Aquele que combina as funções de Sacerdote, Profete e Rei. Jesus é o Cristo por cumprir todas as profecias e realizar milagres confirmados pelas Escrituras. No sermão inaugural da igreja, Pedro confirmou: “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (Atos 5,30-31).
Reconhecer Jesus com o Cristo é um ato de fé, gerado pelo Espírito Santo e evidencia o novo nascimento. Assim Paulo ensinou aos Coríntios: “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 12,3). João também insistiu nisso: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1 João 5,1).
A chamada confissão de Pedro em Mateus 16,16 dramatiza essa verdade: “Tú é o Cristo”. A confirmação por Jesus desta declaração de fé como revelação de Deus ensina sobre a sua expectativa quanto aos discípulos. Ele veio para ser Salvador e Senhor. A igreja prossegue por ter um Senhor. O nome Jesus Cristo confirma esta verdade. Tanto sua pessoa, ser o Filho de Deus, quanto sua obra, ter sido ungido por Deus, encorajam a igreja a seguir incansavelmente.
Esta declaração de fé deve ser o fundamento para a missão da igreja. Jesus salva os perdidos transformando-os em servos. Ele é recebido pelos crentes, mas exige que sejam discípulos. Por isso a missão da igreja, gerada pela fé em Jesus Cristo é anunciar, mas também ensinar. Como saber se somos cristãos? Certamente a resposta a essa pergunta vai além da capacidade de proferir duas palavras, de usar uma expressão com poderes mágicos, de seguir uma tradição confessional. É cristão quem tem uma experiência viva de discipulado com Cristo.
O reverendo anglicano John Sttot, no I Congresso Internacional de Discipulado declarou: “A verdade é que nos mercados religiosos da nossa época a muitos “jesuses” disponíveis. A maioria deles são cristos falsos, distorcidos, são simples caricaturas do autêntico Jesus no Novo Testamento. Esse grande Jesus não é aquele que carregamos por aí no bolso, como uma seringa hipodérmica. Não! Longe de nós esses “jesuses” insignificantes e pigmeus – Jesus, o palhaço; Jesus, o astro; Jesus, o messias político; Jesus, o revolucionário; Jesus, o reacionário – se é isso que pensamos de Cristo e se é esse Cristo que proclamamos, não é de admirar que continuemos imaturos. Onde, então, encontramos o Jesus autêntico, para crescermos em nosso entendimento sobre Ele e em nosso relacionamento com Ele? A resposta é evidente: Nas Escrituras. A Bíblia é o retrato de Deus do Seu Filho, fotografado pelo Espírito Santo”.
A fé pessoal traduzida numa confissão oferece à igreja o Norte da sua caminhada. Expressa o coração da sua vida comunitária, sua missão de transformação do mundo. A vida na igreja dever a tal ponto cristocêntrica, de tal maneira jesuânica, que um membro da comunidade possa reverentemente dizer: minha fé é Jesus Cristo. Esta é confissão simples e livre da igreja.

domingo, 18 de março de 2012

BREVE HISTÓRICO DE UMA CONSCIÊNCIA POLÍTICA

Enquanto a ditadura militar imperava no Brasil com a justificativa de defesa contra o comunismo eu ainda não era nascido. Na luta pela redemocratização que culminou com a assembleia nacional constituinte, apenas com nove anos, preocupava-me mais com o bicampeonato do Esporte Clube Bahia. Quando aconteceu o Impeachment de Fernando Collor já discutia política nas aulas de OSPB do ginásio, mas a preocupação principal era passar para a 7ª série. Depois do Plano Real, as moedas ainda chamavam mais a atenção do que as privatizações. Só no Seminário e na Universidade tive oportunidade de conhecer e discutir os problemas políticos do país. Nessa época cheguei a participar de mobilizações de estudantes em apoio aos professores das Universidades Estaduais, inclusive protestando nas ruas de Salvador. 
Faço essa retrospectiva para destacar um fato lamentável. Desde os onze anos sou membro de igrejas batistas na Bahia, em Itamari, Jaguaquara e Camaçari. Só aos dezoito, como seminarista, fui estimulado a pensar e agir em função da conjuntura política a partir da leitura da Bíblia. Assim, a adolescência, fase vibrante de potencial incalculável, no que dependeu da consciência crítica da igreja, passou inocente. Costumo pensar de forma um tanto narcisista: que pastor eu seria se tivesse sido meu pastor? A brincadeira serve para refletir sobre a responsabilidade de trazer para a dieta do púlpito a urgência de uma conscientização da igreja no campo político, debater temas atuais, mobilizar o povo para uma postura relevante no contexto local, nacional e global. 
Encontramos na história da Igreja de Cristo reações severas a uma vida espiritual alienante e estéril socialmente. Na Idade Média, vivendo uma aliança como o poder temporal do Estado, a cristandade pregava a ausência total de sentido para a vida terrena e explorava a salvação eterna com doutrinas como o purgatório e práticas como a indulgência. Como a Reforma Protestante vislumbram-se novos horizontes de fé com a liberdade do sacerdócio universal e a autoridade das Escrituras, mas as reformas sociais foram travadas pelas alianças de reformadores com os Príncipes, a despeito da miséria enfrentada pelos camponeses. 
É possível, no entanto, garimpar outras histórias nas quais conhecemos as experiências de separatistas ingleses, que se levantaram contra a igreja oficial e única, aliada à monarquia. Aprendemos também com os anabatistas, dispostos a uma radicalização na fé e na prática para a concretização do Reino de Deus na vida dos pobres, afirmando o compromisso pessoal e comunitário. 
Esta história de militância espiritual pode ser encontrada também na experiência de Marin Luther King Jr., pastor batista negro norte-americano, que revolucionou a sociedade do pós-guerra em seu país, na luta contra a segregação racial. O evangelho que havia alcançado os negros servia-lhes de impulso para mudarem a sociedade do seu tempo. Luther King viveu e morreu lutando. 
Tive a oportunidade de estudar a história da vida e do ministério de outro “anjo negro”, um baiano, que viveu e morreu lutando para que as crianças de Esplanada-BA, conhecessem que o Reino de Deus, salva a alma e alimenta o corpo, restaurando a dignidade humana. Foi o Pr. Gabriel Ferreira de Almeida, missionário pioneiro da Convenção Batista Baiana naquela cidade. 
Este tipo de espiritualidade representa o modelo que Jesus nos deixa na busca pessoal que precisamos empreender pela santidade. Separar-nos para Deus aproximando-nos Dele, para vivermos integralmente a missão que dEle recebemos, amando o homem e o mundo como Ele ama, a ponto de servirmos sacrificialmente. 
A igreja precisa ser um espaço de formação crítica da juventude. À luz da Palavra de Deus, pastores e líderes devem mediar debates políticos, estimular o engajamento social e aproveitar as tecnologias da informação e comunicação para integrar essa geração numa prática social que encarne o evangelho. A igreja deve ser formadora da visão política, principalmente dos mais jovens.

sábado, 17 de março de 2012

O CRISTÃO DIANTE DA CORRUPÇÃO GENERALIZADA

Neste ano de pleito eleitoral nos municípios, com desdobramentos para as eleições presidenciais em plena Copa do Mundo no Brasil a igreja precisa buscar na santidade de Jesus o modelo para um posicionamento profético de denúncia do pecado estrutural que viceja na República. A crise ética na política exige com urgência uma reforma radical em nossas instituições democráticas. Mas o principal problema a ser enfrentado é a crise de integridade pessoal e participação social. É preciso repensar a postura ética e o engajamento social do cristão nesse contexto. 
A corrupção invade dia-a-dia, é generalizada. A xérox do livro, o CD “pirata”, a ausência de nota fiscal, a fila furada no banco, o desrespeito às leis de trânsito, a ficha sem fila no posto de saúde, o pistolão no emprego. Não podemos ser hipócritas. Esse pecado é estrutural e nos envolve também. É gerado por uma cultura paternalista de troca de favores. Está em Brasília e aqui. Diante desse desafio é preciso cultivar o desejo de ser um exemplo. “Não vos amoldeis a este mundo... (Rm 12,2). A atitude deve ser de resistência e perseverança, um riacho que continua a correr no meio da terra seca (Am 5,25). Fazer o que é certo a qualquer custo. Deus está procurando uma pessoa que pratique a justiça nas ruas e nas praças... (Jr. 5,1). Pela graça, Jesus é o modelo que eu posso adotar e per-seguir incansavelmente. Sem paranoia nem loucura perfeccionista, mas disposto assumir a responsabilidade de ser sal e luz (Mt. 5,13-16). 
Nosso ponto de partida deve ser a santidade de Jesus de Nazaré. Ele foi ungido pelo Espírito, separava tempo para orar, estudava a Palavra de Deus na sinagoga, ensinava e pregava o Reino de Deus, mas também tocava em leprosos, comia como publicanos, tinha mulheres como seguidoras, curava e alimentava multidões de miseráveis, entendia que os pobres eram os primeiros a receberem o Reino (Mt. 11,5; 25-27). 
Ele vivia uma espiritualidade integral. Desde a devoção pessoal, passando pelas ações concretas que mudavam as vidas e as relações das pessoas, até à intervenção nas estruturas sociais opressoras do seu tempo: a hipocrisia dos líderes religiosos (Mt. 23,13), a adulteração da religião do Templo (Mc. 11,15), o poder do Império Romano (Lc. 9,58). Ensinando seus discípulos sobre a necessidade de uma espiritualidade da ação chegou a afirmar que os pobres seriam um desafio constante para a sua missão (Mt. 26,11). 
Jesus não é apenas modelo de ética pessoal, mas de engajamento social. Muitos problemas que enfrentamos são estruturais, estão nas instituições, inclusive denominacionais, e na cultura. Mas, fomos enviados ao mundo (Jo. 17,14-18). Ele lutou contra a hipocrisia, as injustiças, o pecado dos religiosos e políticos, a opressão aos excluídos. Temos que participar, lutar. A reunião de professores, a associação do bairro, os conselhos populares, filiar-se ao partido para tirar da liderança os corruptos. É preciso se desgastar. Ter a consciência de estar fazendo o possível. 
Diante da generalização da corrupção a sociedade clama por uma postura integra e participativa por parte da igreja. O mal invade e envolve, está lá e aqui. Devo ser diferente e fazer diferença. Lutar pela transformação do mundo para experimentar a vontade boa, perfeita e agradável de Deus. A graça se manifestou e trouxe a salvação, por isso posso aprender a viver de maneira justa, aguardando a esperança da volta gloriosa do meu Senhor, quando todo mal terá fim (Tt 2,11-15).

sexta-feira, 16 de março de 2012

QUANDO O SOM DA TROMBETA ECOAR

Das poucas lembranças que guardo da primeira infância na zona rural de Itamari-Ba, as mais vivas remetam a melodias do Cantor Cristão que ecoavam do sobrado onde a igreja se reunia, na casa do irmão João Inácio, dono da fazenda. Depois, já morando na sede do município, passei a adolescência aprendendo outras músicas do hinário. Dentre elas, ficou gravada, pela voz maviosa do Pr. Osias Antônio Lima, a do hino 114, “A Vinda do Senhor”. A mensagem bíblica comunicada pela letra afirma: “Como foi para o céu, Jesus Cristo há de vir/Quando o som da trombeta ecoar/Quando a voz de um arcanjo no céu estrugir/Eu irei com Jesus me encontrar”. A nossa compreensão sobre a Volta de Cristo é limitada, mas a expectativa do encontro está fundamentada nas Escrituras e permite-nos viver a esperança da glória. 

Interessados em precisar o tempo da restauração de Israel, os discípulos aprenderam sobre a limitação das suas expectativas diante o fim: “Respondeu-lhes: A vós não vos compete saber os tempos ou as épocas, que o Pai reservou à sua própria autoridade” (Atos 1:7). Quando contemplavam a ascensão do Senhor, os mesmos foram orientados pelos anjos: “Varões galileus, por que ficais aí olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi elevado para o céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (1:11). 

A atual conjuntura mundial nos apresenta uma ameaça: uma guerra química ou biológica torna-se uma possibilidade cada vez mais ameaçadora. O terrorismo e a violência urbana são feridas abertas para as quais não se consegue encontrar cura. Como disse Russel Shedd em sua Escatologia do Novo Testamento, estes são alguns eventos que despertam o interesse milenar pelos “tempos do fim”. 
Os seguidores de William Miller e Charles Russell nos Estados Unidos propuseram interpretações e datas para o retorno Jesus em 1918, 1925 e 1975. Também os pentecostais e grupos históricos fundamentalistas continuam investindo em previsões, embora seu discurso tenha perdido vigor. Podemos criticá-los de equivocados, desconhecedores da história ou conformistas na sua visão política. Devemos, no entanto, considerar suas perguntas e buscar respostas em nossa compreensão da fé cristã. 
De acordo com a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, o mal será completamente vencido e surgirão o novo céu e a nova terra para a eterna habitação dos remidos com Deus. Em cumprimento à sua promessa, Jesus Cristo voltará a este mundo, pessoal e visivelmente, em grande poder e glória. 
Por certo, o futuro não será continuação do presente. Na cruz, a fé antecipa o destruição do mal. Com a ressurreição tem início uma nova vida e uma nova criação. A Segunda Vinda trará a crise definitiva da história. “Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça” (2 Pe 3:13). 
Ninguém sabe o dia e a hora derradeira. A Bíblia não possui nenhum código secreto que permita desvendar os mistérios de Deus sobre o futuro. Assumindo a posição de filho, de servo, de humano, limitado, Jesus nos ensinou sermos incapazes de prever o futuro. Além disso, é infrutífera a elaboração de cálculos que estabeleçam um calendário para a vontade de Deus. “Quanto, porém, ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu nem o Filho, senão o Pai” (Mc 13:32). 
Vivemos o tempo da graça. Deus continua derramando seu amor e justiça no mundo. Enquanto esperamos a plenitude do Reino já inaugurado, contemplamos a longanimidade de Deus para com os perdidos. “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pe 3:9). 
O sinal mais claro que aponta o fim é a evangelização universal do mundo. Para Jesus, catástrofes naturais, falsos profetas, traição e ódio dentro da comunidade de fé e conflitos mundiais são apenas o princípio das dores. A indicação mais eloquente dos últimos tempos é a expansão missionária mundial. “E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim”. (Mt 24:14). 
Mesmo o apóstolo Paulo também cultivou uma expectativa equivocada sobre os eventos escatológicos (1 Ts 4:15). Aprendemos com ele que a igreja, limitada diante do conhecimento do futuro, deve empoeirar os pés na terra tirando os olhos das nuvens. O que nos cabe agora é servir, amar, agir. O nosso tempo é hoje. Somente assim poderemos cumprir a missão de testemunhar o Evangelho no poder do Espírito. Paulo é um exemplo de fervor missionário como consequência da esperança da vinda de Cristo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

REFLETINDO COM MAX WEBER SOBRE O FILME "A ONDA"


Tenho buscado oportunidade para discutir com os jovens e adolescentes da igreja sobre o avanço das tecnologias de comunicação ligadas à internet e a emergência do fenômeno das redes sociais. Dentre os temas deste debate, será necessário pontuar em que medida tem-se criado um espaço favorável à ascensão de “ditaduras virtuais” ou mesmo o ressurgimento de movimentos fascistas.
O filme A Onda é nossa proposta para arrazoar sobre o tema. Parti de impressões e percepções pessoais para construir uma leitura da película à luz do pensamento de Max Weber. Sou devedor aqui dos comentários do professor Erenildo João Carlos (UFPB)[1].
O longa-metragem é baseado numa história real ocorrida na Califórnia em 1967. Isso é um fator de atração pessoal. Aprecio muito produções desse tipo. A pesquisa, segundo matéria do Estadão[2], constou de entrevistas com os antigos garotos e garotas, hoje na faixa de 50 anos. Ambientou-se na escola e envolveu jovens secundaristas no contexto da atual Alemanha, antigo palco do terror nazista nos anos 30.
A contextualização histórica é provocativa. O autor, Dennis Gansel, afirma que ao ter viajado pelo país para divulgação do filme encontrou jovens perplexos e revoltados diante das exigências do mercado de trabalho sem qualificação e oportunidades. A reportagem do Estadão registrou ainda uma declaração sobre a exclusão social, um dos temas abordados na película: "No caso da Alemanha, a crise retirou recursos justamente de escolas que atendiam comunidades de imigrantes. Por princípio, já são os excluídos. As consequências disso talvez só vejamos daqui a alguns anos"[3]

Escolhi usar os óculos sociológicos de Max Weber pela abordagem clássica que faz da liderança carismática baseada na veneração do poder pessoal. Para este pensador alemão (1864-1920), o indivíduo e sua subjetividade estão no centro do objeto de estudo da sociedade, quer faça parte do cotidiano quer seja uma figura histórica. O indivíduo é o fundamento da ação social. 

Os sujeitos sociais exercem controle uns sobre os outros. O motivo do sujeito e quem ele toma como referência são as duas características fundamentais do objeto de estudo da sociologia para Weber. A sociedade e a história são feitas pela ação intencional de um indivíduo sobre o outro. A relação social se dá entre indivíduos. As coisas são tão-somente os meios pelos quais os indivíduos se relacionam. 

Weber considera que o sentido social da ação pode ter natureza racional, referente a fins e valores, e irracional, quanto à emoção e tradição. Assim emergem os tipos de dominação, a saber, racional (ou legal), tradicional e carismática. Ações subjetivas ou intersubjetivas podem disputar o controle legítimo da sociedade. Esta legitimidade dependerá da disposição coletiva em submeter-se a regras. Mas, a obediência às normas estabelecidas pode ser motivada pela irracionalidade da massa. 

Gansel tem isso em mente quando defende: "se o líder é forte, carismático, as pessoas se anulam cada vez mais. É fácil seduzi-las com ideias de superioridade. Elas terminam por se eximir de sua responsabilidade. Passam a cumprir “ordens”, que são legitimadas pelo senso comum, como ocorreu na Alemanha, no passado. A Onda é sobre educação, deseducação, sobre responsabilidade social”[4]

Rainer Wegner, o professor do filme, inconscientemente deu vazão ao seu estado emocional. A experiência pedagógica que protagonizou permitiu o exercício do carisma pessoal. Os alunos reagiram favoravelmente à atitude autocrática, com poucas exceções. É próprio da juventude e tendência a aquiescer diante da ascensão líderes carismáticos. O uso dos mecanismos do fascismo pelo professor, como a ostentação do lema “força pela disciplina”, criou a “onda” de adesão que e veio a sair do controle levando à morte de um dos alunos. 
Destaco dentre os personagens o aluno suicida. O isolamento social, a imersão na internet, o desajuste familiar aliaram-se para gerar as condições do suicídio. Esse tema perpassa o enredo. Ora em diálogos, ora em imagens.
Enquanto que por um lado a igreja precisa oferecer espaço para a chamada geração Millennials, por outro, deve apresentar referenciais sagrados e históricos. Esta geração precisa de fé e reflexão para resistir diante dos perigos da massificação, para que, para não seja facilmente manipulada, influenciada em vez de influenciadora.
A igreja tem um papel fundamental na conscientização da juventude diante do perigo dos fundamentalismos ideológicos. Deve fomentar a visão crítica diante da “indústria gospel”, resistir à manipulação político-partidária, principalmente neste ano eleitoral. O único caminho é a reflexão. Refletir com Weber. Refletir no cinema. Mas, sobretudo transformar-se pela renovação da mente para uma não-conformação diante do mundo (Romanos 12,2). 

____________________ 
[1] ALDRIGUE, Ana Cristina de Souza Org. Linguagens: usos e reflexões. v.2 – João Pessoa: Editora da UFPB, 2009. 
[2] Luiz Carlos Merten – In: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-onda-e-as-tentacoes-do-nazismo,424812,0.htm. Acessado em 23/09/2011; 20:00. 
[3] Idem. 
[4] Idem.

segunda-feira, 5 de março de 2012

ORAÇÃO DE NIETZSCHE AO DEUS DESCONHECIDO

Antes de prosseguir em meu caminho 
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais, 
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo. 
A Ti, das profundezas de meu coração, 
tenho dedicado altares festivos para que, em 
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar. 
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: 
“Ao Deus desconhecido”. 
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos. 
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. 
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo. 
Eu quero Te conhecer, desconhecido. 
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. 
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, 
quero Te conhecer, quero servir só a Ti. 

(Traduzida do alemão por Leonardo Boff)





quinta-feira, 1 de março de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU! ESTOU VESTIDA DE FORMA QUE AGRADE A DEUS?

Resolvi escrever sobre o uso adequado de roupas e acessórios para a mulher cristã depois de constatar que, no ministério pastoral, de quando em quando, precisamos descer da ética para a etiqueta. Até sobre estética um pastor deve versar. A matéria prima do trabalho pastoral é a vida comum das pessoas, seu dia a dia, rumo à eternidade, mas com as peculiaridades que homens e mulheres produzem num contexto local.
Quem lê estas considerações (quase lamúrias) a partir de um ambiente cosmopolita ou, até mesmo, em outra cultura, fora do Brasil, pode questionar a relevância do tema e criticar: por que esse pastor não prioriza na sua agenda de leitura e escrita assuntos indispensáveis para a humanidade nesse tempo como a proliferação da AIDS no continente africano ou o caso Pinheirinho?
Pois bem, não pensem que faço da vida um conto de fadas nem passo o dia diante do espelho. A transpiração da função de cura d’almas fez-me compreender porque Paulo e Pedro, admiráveis pastores do início do cristianismo, reservaram espaço privilegiado em seus escritos pastorais para essa temática. E se aqueles homens e mulheres continuam homens e mulheres desde então, apesar das roupas terem mudado e mudado também os olhares, vejamos o que eles escreveram:
I Timóteo 2,9-10
“Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras”.
I PEDRO 3,3-6
“O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos; Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam também antigamente as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam sujeitas aos seus próprios maridos; Como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor; da qual vós sois filhas, fazendo o bem, e não temendo nenhum espanto”.
Seria interessante analisar aqui essas passagens. Como não o farei, indico o belíssimo trabalho de Elizabeth Portela, em “O adorno da mulher cristã”. Por hora, atenho-me a, apenas, breves considerações.
A beleza humana é um culto ao Criador e a capacidade de apreciá-la é divina. Não há pecado algum na admiração de uma mulher bonita, vestida de modo a valorizar seu perfil corporal. Muito menos constitui abominação para Deus a mulher cuidar do cabelo, maquiar-se, usar acessórios que destaquem sua beleza.
A recomendação bíblica é sobre o equilíbrio entre as belezas interior e exterior no exercício da mordomia da liberdade cristã. Para tanto, deve-se começar comprando um espelho. Ao arrumar-se, ter a coragem de perguntar: Espelho, espelho meu! Estou vestida de modo que agrade a Deus?
Acrescente-se ainda um fato: a ditadura da moda. A indústria da beleza que se serve de rostos e corpos de celebridades para vender um estilo de vida em forma de roupas e cosméticos, impõe a necessidade de escolha: usar ou ser usada. Sendo assim, será que já podemos comemorar o crescimento do mercado de “beleza gospel”? No mínimo, sabemos que existem estilistas e empresários pensando em mulheres dispostas recusar um padrão único ditado pelos meios de comunicação.
A mulher cristã precisa ter bom senso para adequar a roupa ao contexto. Ou será que não podemos perguntar: Como uma freira deve se vestir? Como uma prostituta se veste? E uma executiva? Como se vestir para comparecer a uma audiência? E numa entrevista de emprego? Como uma mulher cristã deve vestir-se? Como se vestir para ir a um templo? Infelizmente o problema maior está numa educação para a vida que desconsidera a etiqueta.
A igreja intervém (ou melhor, quase sempre o pastor) para compensar a negligência familiar. A igreja agrega valor à família, procura fortalece-la em meio ao caos moral. Mas, sinceramente, aprendemos a nos vestir em casa. Por isso, deve-se adotar uma orientação sobre o uso da roupa de quem representa publicamente a comunidade, apresenta-se diante da congregação. Isso, ao menos, sinaliza para a necessidade de um zelo maior em família.

A essa altura os leitores já devem ter feito a pergunta: e os homens. Bem, guardadas as devidas proporções, ipsis litteris.