sábado, 22 de setembro de 2012

A CENTRALIDADE DE DEUS NO CULTO CRISTÃO



O Antigo Testamento estabelece a centralidade de Deus no culto. Esse ensino radicado na experiência histórica dos judeus ultrapassa os limites da sua religião e influencia decisivamente o Cristianismo. Nada obstante o culto cristão ser centrado no “evento” Cristo, o temor a Deus ao redor do qual orbita a celebração cúltica foi preservado e intensificado no Novo Testamento. 
Em Hebreus 12 encontramos impresso o sentimento de temor característico da adoração no Antigo Testamento. A partir do verso 18, descrevendo a epifania do Sinai, comparado a um espetáculo vulcânico, o autor da epístola informa que até Moisés ficou apavorado. A seguir apresenta a realidade espiritual da igreja e conclui convocando os destinatários a uma atitude de reverência e temor que supera a vivência do povo da Antiga Aliança: “Ora, esta palavra: Ainda uma vez por todas significa a remoção dessas coisas abaladas, como tinham sido feitas, para que as coisas que não são abaladas permaneçam. Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor... por que Deus é um fogo consumidor” (27-29). 
O teólogo protestante alemão Rudolf Otto constatou em seu estudo comparado das religiões que a experiência do sagrado envolve o sentimento de pavor, mysterium tremendum, em oposição ao mysterium fascinans, que atrai o homem para um relacionamento mais profundo e intenso. É como se Deus produzisse em nós atração e repulsão simultaneamente. Na medida em que somos atraídos por uma força misteriosa, outra força igualmente misteriosa nos leva a fugir, como se nele houvesse algo que nos amedronta e apavora. O homem tem um sentimento de profunda nulidade diante dEle, sente-se não ser mais do que uma criatura, com comentou o professor Merval Rosa. 
A diferença fundamental do Novo Testamento está na perfeição do sacrifício de Cristo que torna a vida cristã “um reino inabalável”, mas que igualmente exige “reverencia e temor”. Na igreja cristã, a centralidade de Deus e o temor a Ele devido devem se manifestar numa prática litúrgica coerente com esta compreensão. Esse temor não se traduz em medo de aniquilamento apenas, mas em compromisso radical, em levar Deus a sério, tÊ-lo diante dos olhos. Nas palavras do autor aos Hebreus: cultuar “fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (12,2). Saber ser aceito por Deus através do sacrifício de Cristo e saber que isso exige tudo. Culto público sem esse culto pessoal é simplesmente festa da carne. 
Lembro-me da experiência de um colega no seminário que foi procurar seu mentor, um pastor muito experiente, pois estava experimentando um temor muito intenso ao pregar. Isso estava interferindo em seu desempenho, deixava-o paralisado, incomodado. O seu pastor de pronto respondeu: “até hoje sinto-me assim; no dia em que você deixar de sentir, deixe de pregar”. 
Lamentavelmente a igreja evangélica tem permitido a vulgarização do culto ou, pelo menos, a redução da sua profundidade, trocando reverencia por entretenimento, deixando de adorar a Deus para satisfazer o homem, abandonando teocentrismo e adotando o antropocentrismo. 
E antes que o leitor se canse rejeitando nesse texto o que considerar lugar comum ou clichê pastoral, insisto que não podemos “separar o que Deus uniu”, o culto da vida, a celebração pública da devoção pessoal. Toda crítica que se levante sobre essa liturgia formatada pelo mercado gospel ainda é insuficiente. Na prática do ministério tenho identificado uma regra: se a comunidade não é capaz de experimentar a riqueza e a profundidade de uma celebração coletiva plena e abundante da presença tremenda e fascinante de Deus, então devo constatar que a vida espiritual, familiar e diária é pobre e rasa. 
Voltando para a influência do Antigo Testamento no culto da igreja cristã, chegamos a Abel. Com ele testemunhamos o primeiro sacrifício registrado na Bíblia dentro do modelo cúltico que se estabeleceu desde a criação até o êxodo, simbolizado pela figura do altar. Consideramos dois elementos daquele culto como referenciais norteadores para toda a Bíblia e, por isso, necessários para nossa prática litúrgica hoje. 
Um culto comprometido com a excelência. Em Gênesis 4,4 está registrada a preocupação de Abel em trazer para o altar as “primícias”, a gordura das primeiras crias do seu rebanho, o primeiro cordeirinho, uma oferta mais excelente. A Epístola aos Hebreus justifica a inclusão de Abel na galeria dos “heróis da fé” com a nota: “Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente oferta” (Hb 11.4). Deus mesmo promulgou este princípio para o culto ao rejeitar a atitude relaxada, preguiçosa e leviana do seu povo através do profeta Malaquias: “Pois quando ofereceis em sacrifício um animal cego, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou o doente, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; terá ele agrado em ti? Ou aceitará ele a tua pessoa? diz o Senhor dos exércitos” (Ml 1.8) 
O pastor Josué Salgado relacionou essa atitude no culto com uma postura diante da vida: “Por trás de uma oferta e um culto de má qualidade, há sempre um adorador deficiente e rejeitado por Deus!”. 
Um culto comprometido com a integridade. Na história de Abel fica evidente esse ensino sobre adoração: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn 4,4). Primeiro Deus aceita o ofertante para depois aceitar a oferta. A formação do povo de Israel na adoração mostra que o caminho para essa integralidade é da devoção pessoal para a celebração pública, do secreto do quarto para a festa da comunidade. Como disse certa irmã idosa aos seus netos, de maneira simples e direta: “Encha a vida de Deus durante a semana e vá para o templo no domingo completar”. A celebração coletiva é oportunidade de completar e transbordar da vida de Deus experimentada no dia-a-dia. 
Aprendemos assim com Antigo Testamento que Deus está no centro do culto da vida e esta vivência individual se expressa coletivamente na congregação. Sem o temor a Deus não é possível cultuar. Para servirmos a Deus de modo agradável mediante a graça que recebemos em Cristo devemos prestar nosso serviço cúltico a Deus, considerando-o como o centro de nossas vidas, como uma chama viva que queima nossos corações.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

MARAVILHOSA GRAÇA



Amazing Grace (Maravilhosa/ Preciosa Graça) é uma das canções mais executadas. Cantada por grandes músicos como Celtic Woman, Soweto Gospel Choir, IL Divo, Elvis Presley, Michael Smith e orquestrada por André Rieu. Já integrou repertório musical em grandes eventos musicais e até em tragédias como o massacre numa sala de cinema em Aurora-EUA quando pessoas que participavam da vigília consternados a entoaram.

Em 2006 foi lançado o filme "Amazing Grace"(Jornada pela liberdade). A película trata da vida de William Wilberforce, um ativista contra a escravidão durante o século 18, Jonh Newton - compositor da letra desta canção- é representado no filme como amigo e mentor de Wilberforce. A magnitude desta canção que a fez transpassar séculos seguramente será pela profundidade da doutrina da indizível Graça do Nosso Senhor expressa na letra de quem compreendeu que é inaceitável a crueldade das correntes q aprisionam seres humanos assim como é terrível ser/estar acorrentado pelo pecado.

Eis um pouco da história da letra e da melodia desta bela canção:


História da letra e vídeo:

Por volta de 1750, John Newton era o comandante de um navio negreiro inglês. Numa das suas viagens, o navio enfrentou uma enorme tempestade e afundou-se. Foi nesta tempestade que Newton ofereceu sua vida a Cristo, pensando que ia morrer.Após ter sobrevivido, ele converteu-se verdadeiramente ao Senhor Jesus e começou a estudar para ser um Pastor”. Nos últimos 43 anos de sua vida ele pregou o evangelho em Olney e em Londres. Em 1782, Newton disse: "Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador."No túmulo de Newton lê-se: "John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos na África, foi, pela misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé que ele tinha se esforçado muito por destruir". O seu mais famoso testemunho continua vivo, no mais famoso das centenas de hinos que escreveu:

Elisângela Soares
(Por e-mail)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O DESAFIO DA DIVERSIDADE NO CULTO CRISTÃO

 


processo de construção de uma celebração coletiva reúne várias vozes, mãos e posições diferentes. Desde a seleção das músicas, a escolha das leituras bíblicas, a inclusão de participações individuais, tudo converge para expressar a adoração da igreja local, um estilo que contemple diversas influências até que se alcance o máximo de representatividade do povo. 
Numa igreja batista, por natureza marcada pela autonomia, que incentiva a liberdade de consciência e a consequente responsabilidade individual de seus membros, essa é uma tarefa espinhosa, mas com recompensa insuperável. Vale a pena todo esforço do pastor, do ministro de música, dos demais líderes envolvidos nas áreas de artes e comunicação para a construção coletiva do que chamamos de “culto”, de modo que ele venha manifestar a “multiforme graça de Deus” na adoração da comunidade.

Mesmo sendo este um ideal, reconhecemos a tendência pela uniformização que prioriza o conforto ou o poder. Sente-se aí o peso da tradição, do que já foi feito, do que se considera melhor, do passado. Recebemos uma herança riquíssima dos nossos pais espirituais e devemos valoriza-la também no que diz respeito à forma de cultuar em comunidade. Contudo, as novas gerações enriqueceram significativamente a liturgia das nossas igrejas e cabe-nos incorporar criticamente as marcas de um novo tempo. 

A visão crítica e reflexiva nos levará a rejeitar as tentativas de imposição de um estilo pessoal sobre a coletividade, mesmo que venha do pastor. Essa tendência pode se manifestar na interpretação bíblica equivocada que quer ver um estilo uniforme de culto na igreja primitiva. Na verdade nunca existiu “a igreja primitiva” e sim “as igrejas cristãs do primeiro século”. Por isso deve-se aprender com seus diversos estilos culto. 

Paulo Siepierski e Glenn Hinson dedicam um capítulo do livro “Vozes do Cristianismo Primitivo” a esse debate. Hinson afirma: “A característica mais óbvia a ser atribuída ao culto no primeiro século é diversidade”. O estudo mostra que dois estilos foram fornecidos pelo judaísmo: templo e sinagoga, e os outros dois nasceram de preocupações cristãs específicas: cenáculo e palavra. 
Fica esclarecido, então, que qualquer experiência de uniformização da liturgia na igreja hoje tomando por fundamento o Novo Testamento é emocional ou política. Para ser coerente com o culto neotestamentário, a igreja deve zelar pela heterogeneidade quer seja na participação de todas as faixas etárias, quer na inclusão de ritmos e expressões artísticas diferentes. Idosos e adolescentes, homens e mulheres, doutores e analfabetos, comunicando através da celebração o milagre da unidade na diversidade. 
A música de Guilherme Kerr, Unidade e diversidade expressa poeticamente este ideal: 

Da multidão dos que creram era só um o coração 
E a alma, uma somente, uma semente 
Somente uma esperança brotando dentro da gente 
Nosso era o pão cada dia, 
Nosso era o vinho, santa folia 
O que se parte reparte a própria vida 

Quando ouço essa música sou levado cativo do sentimento de pertença à origem singela e profunda que essa canção lembra. Sou levado a ler Atos dos Apóstolos com esse vínculo afetivo, especialmente os capítulos 2 e 4, referenciados pelo autor. Deixo de perceber, no entanto, que Lucas não omitiu as crises e conflitos próprias desse período e incluiu em sua narrativa como desafios que ainda são atuais. 
É um sentimento semelhante ao do “primeiro amor”. Vivi esta experiência na Primeira Igreja Evangélica Batista em Itamari, na década de noventa, quando ainda adolescente, e fui decisivamente influenciado pelo estilo do meu pastor, Osias Antônio Lima, obreiro veterano, com formação batista regular, e muito rigoroso em sua interpretação do que chamava “decência e ordem”, argumento usado pelo apóstolo Paulo na primeira Carta aos Coríntios, capítulo 14 para tratar de culto. 
Os anos naquela igreja formam minha origem e a herança recebida tem um valor especial. Mas percebi nos primeiros dois anos do ministério na Igreja Batista Sião em Camaçari, 2003 a 2005, que estava cometendo um grande equívoco. Associei minha experiência pessoal ao ideal bíblico de unidade. Tentei uniformizar o culto. Deixei de ouvir a comunidade, respeitar sua identidade que é espontânea e festiva. 
A igreja respondeu de forma surpreendente. O número de adolescentes aumentou a ponto de formar um grupo forte e atuante. Até então sem espaço na celebração. Comecei a perceber que, após o término dos cultos, eles se juntavam à equipe de música e cantavam, dançavam, brincavam com alegria intensa. As crianças vibravam com aquele momento. Entendi, com certo grau de dificuldade, que aquele era o culto da igreja, pelo menos da sua maioria. Estabeleci com o ministro de música, irmão Valdivino Santos Filho, o objetivo de superar aquela diferença e unir os “dois cultos” para representar mais democraticamente o estilo da igreja. 
A começar pelo pastor, a liderança da igreja, os pais, os membros mais maduros, todos devemos investir no diálogo. Com o compromisso de zelar pela centralidade de Deus em tudo, pela sinceridade como marca da adoração, pelos elementos essenciais de uma celebração, a saber: oração, palavra, comunhão, música, dedicação dentre outros. Ouvir o povo, conhecer o contexto local, fazer experiências, abrir a mente. Esses são desafios que encontramos na construção do culto coletivo. 
As vozes das igrejas com cristianismo primitivo precisam ser ouvidas. Ouvimos no texto bíblico sobre a diversidade como característica fundamental do culto. O culto ideal não é o culto individual. O culto ideal não é o culto do pastor. O culto ideal é o culto da eternidade, o culto do milagre que une os diferentes. Os cristãos primitivos estavam mais próximos do culto visto por João e registrado no apocalipse, capítulo 7,9-10. Esse futuro precisa ser antecipado, nosso esforço deve ser nessa direção por obediência ao Cordeiro. 
“Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos; E clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro”. 
Mais uma vez Guilherme Kerr conseguiu traduzir a visão do apóstolo exilado em melodia e poesia irretocável com a qual concluo essa conversa na esperança de ter contribuído para que você também colabore para que o culto na sua igreja local seja a antecipação do culto da eternidade. 

De todas as tribos, povos e raças 
Muitos virão Te louvar 
De tantas culturas, línguas e nações 
No tempo e no espaço, virão Te adorar 

Bendito seja sempre o cordeiro 
Filho de Deus, raiz de Davi 
Bendito seja o Teu santo nome 
Cristo Jesus presente aqui 

Remidos, comprados, grande multidão 
Muitos virão Te louvar 
Povo escolhido, Teu reino e nação 
No tempo e no espaço, virão Te adorar 

E a nós só nos cabe tudo dedicar 
Oferta suave ao Senhor 
Dons e talentos queremos consagrar 
E a vida no Teu altar pra Teu louvor.