domingo, 18 de março de 2012

BREVE HISTÓRICO DE UMA CONSCIÊNCIA POLÍTICA

Enquanto a ditadura militar imperava no Brasil com a justificativa de defesa contra o comunismo eu ainda não era nascido. Na luta pela redemocratização que culminou com a assembleia nacional constituinte, apenas com nove anos, preocupava-me mais com o bicampeonato do Esporte Clube Bahia. Quando aconteceu o Impeachment de Fernando Collor já discutia política nas aulas de OSPB do ginásio, mas a preocupação principal era passar para a 7ª série. Depois do Plano Real, as moedas ainda chamavam mais a atenção do que as privatizações. Só no Seminário e na Universidade tive oportunidade de conhecer e discutir os problemas políticos do país. Nessa época cheguei a participar de mobilizações de estudantes em apoio aos professores das Universidades Estaduais, inclusive protestando nas ruas de Salvador. 
Faço essa retrospectiva para destacar um fato lamentável. Desde os onze anos sou membro de igrejas batistas na Bahia, em Itamari, Jaguaquara e Camaçari. Só aos dezoito, como seminarista, fui estimulado a pensar e agir em função da conjuntura política a partir da leitura da Bíblia. Assim, a adolescência, fase vibrante de potencial incalculável, no que dependeu da consciência crítica da igreja, passou inocente. Costumo pensar de forma um tanto narcisista: que pastor eu seria se tivesse sido meu pastor? A brincadeira serve para refletir sobre a responsabilidade de trazer para a dieta do púlpito a urgência de uma conscientização da igreja no campo político, debater temas atuais, mobilizar o povo para uma postura relevante no contexto local, nacional e global. 
Encontramos na história da Igreja de Cristo reações severas a uma vida espiritual alienante e estéril socialmente. Na Idade Média, vivendo uma aliança como o poder temporal do Estado, a cristandade pregava a ausência total de sentido para a vida terrena e explorava a salvação eterna com doutrinas como o purgatório e práticas como a indulgência. Como a Reforma Protestante vislumbram-se novos horizontes de fé com a liberdade do sacerdócio universal e a autoridade das Escrituras, mas as reformas sociais foram travadas pelas alianças de reformadores com os Príncipes, a despeito da miséria enfrentada pelos camponeses. 
É possível, no entanto, garimpar outras histórias nas quais conhecemos as experiências de separatistas ingleses, que se levantaram contra a igreja oficial e única, aliada à monarquia. Aprendemos também com os anabatistas, dispostos a uma radicalização na fé e na prática para a concretização do Reino de Deus na vida dos pobres, afirmando o compromisso pessoal e comunitário. 
Esta história de militância espiritual pode ser encontrada também na experiência de Marin Luther King Jr., pastor batista negro norte-americano, que revolucionou a sociedade do pós-guerra em seu país, na luta contra a segregação racial. O evangelho que havia alcançado os negros servia-lhes de impulso para mudarem a sociedade do seu tempo. Luther King viveu e morreu lutando. 
Tive a oportunidade de estudar a história da vida e do ministério de outro “anjo negro”, um baiano, que viveu e morreu lutando para que as crianças de Esplanada-BA, conhecessem que o Reino de Deus, salva a alma e alimenta o corpo, restaurando a dignidade humana. Foi o Pr. Gabriel Ferreira de Almeida, missionário pioneiro da Convenção Batista Baiana naquela cidade. 
Este tipo de espiritualidade representa o modelo que Jesus nos deixa na busca pessoal que precisamos empreender pela santidade. Separar-nos para Deus aproximando-nos Dele, para vivermos integralmente a missão que dEle recebemos, amando o homem e o mundo como Ele ama, a ponto de servirmos sacrificialmente. 
A igreja precisa ser um espaço de formação crítica da juventude. À luz da Palavra de Deus, pastores e líderes devem mediar debates políticos, estimular o engajamento social e aproveitar as tecnologias da informação e comunicação para integrar essa geração numa prática social que encarne o evangelho. A igreja deve ser formadora da visão política, principalmente dos mais jovens.