sexta-feira, 9 de março de 2012

REFLETINDO COM MAX WEBER SOBRE O FILME "A ONDA"


Tenho buscado oportunidade para discutir com os jovens e adolescentes da igreja sobre o avanço das tecnologias de comunicação ligadas à internet e a emergência do fenômeno das redes sociais. Dentre os temas deste debate, será necessário pontuar em que medida tem-se criado um espaço favorável à ascensão de “ditaduras virtuais” ou mesmo o ressurgimento de movimentos fascistas.
O filme A Onda é nossa proposta para arrazoar sobre o tema. Parti de impressões e percepções pessoais para construir uma leitura da película à luz do pensamento de Max Weber. Sou devedor aqui dos comentários do professor Erenildo João Carlos (UFPB)[1].
O longa-metragem é baseado numa história real ocorrida na Califórnia em 1967. Isso é um fator de atração pessoal. Aprecio muito produções desse tipo. A pesquisa, segundo matéria do Estadão[2], constou de entrevistas com os antigos garotos e garotas, hoje na faixa de 50 anos. Ambientou-se na escola e envolveu jovens secundaristas no contexto da atual Alemanha, antigo palco do terror nazista nos anos 30.
A contextualização histórica é provocativa. O autor, Dennis Gansel, afirma que ao ter viajado pelo país para divulgação do filme encontrou jovens perplexos e revoltados diante das exigências do mercado de trabalho sem qualificação e oportunidades. A reportagem do Estadão registrou ainda uma declaração sobre a exclusão social, um dos temas abordados na película: "No caso da Alemanha, a crise retirou recursos justamente de escolas que atendiam comunidades de imigrantes. Por princípio, já são os excluídos. As consequências disso talvez só vejamos daqui a alguns anos"[3]

Escolhi usar os óculos sociológicos de Max Weber pela abordagem clássica que faz da liderança carismática baseada na veneração do poder pessoal. Para este pensador alemão (1864-1920), o indivíduo e sua subjetividade estão no centro do objeto de estudo da sociedade, quer faça parte do cotidiano quer seja uma figura histórica. O indivíduo é o fundamento da ação social. 

Os sujeitos sociais exercem controle uns sobre os outros. O motivo do sujeito e quem ele toma como referência são as duas características fundamentais do objeto de estudo da sociologia para Weber. A sociedade e a história são feitas pela ação intencional de um indivíduo sobre o outro. A relação social se dá entre indivíduos. As coisas são tão-somente os meios pelos quais os indivíduos se relacionam. 

Weber considera que o sentido social da ação pode ter natureza racional, referente a fins e valores, e irracional, quanto à emoção e tradição. Assim emergem os tipos de dominação, a saber, racional (ou legal), tradicional e carismática. Ações subjetivas ou intersubjetivas podem disputar o controle legítimo da sociedade. Esta legitimidade dependerá da disposição coletiva em submeter-se a regras. Mas, a obediência às normas estabelecidas pode ser motivada pela irracionalidade da massa. 

Gansel tem isso em mente quando defende: "se o líder é forte, carismático, as pessoas se anulam cada vez mais. É fácil seduzi-las com ideias de superioridade. Elas terminam por se eximir de sua responsabilidade. Passam a cumprir “ordens”, que são legitimadas pelo senso comum, como ocorreu na Alemanha, no passado. A Onda é sobre educação, deseducação, sobre responsabilidade social”[4]

Rainer Wegner, o professor do filme, inconscientemente deu vazão ao seu estado emocional. A experiência pedagógica que protagonizou permitiu o exercício do carisma pessoal. Os alunos reagiram favoravelmente à atitude autocrática, com poucas exceções. É próprio da juventude e tendência a aquiescer diante da ascensão líderes carismáticos. O uso dos mecanismos do fascismo pelo professor, como a ostentação do lema “força pela disciplina”, criou a “onda” de adesão que e veio a sair do controle levando à morte de um dos alunos. 
Destaco dentre os personagens o aluno suicida. O isolamento social, a imersão na internet, o desajuste familiar aliaram-se para gerar as condições do suicídio. Esse tema perpassa o enredo. Ora em diálogos, ora em imagens.
Enquanto que por um lado a igreja precisa oferecer espaço para a chamada geração Millennials, por outro, deve apresentar referenciais sagrados e históricos. Esta geração precisa de fé e reflexão para resistir diante dos perigos da massificação, para que, para não seja facilmente manipulada, influenciada em vez de influenciadora.
A igreja tem um papel fundamental na conscientização da juventude diante do perigo dos fundamentalismos ideológicos. Deve fomentar a visão crítica diante da “indústria gospel”, resistir à manipulação político-partidária, principalmente neste ano eleitoral. O único caminho é a reflexão. Refletir com Weber. Refletir no cinema. Mas, sobretudo transformar-se pela renovação da mente para uma não-conformação diante do mundo (Romanos 12,2). 

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[1] ALDRIGUE, Ana Cristina de Souza Org. Linguagens: usos e reflexões. v.2 – João Pessoa: Editora da UFPB, 2009. 
[2] Luiz Carlos Merten – In: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-onda-e-as-tentacoes-do-nazismo,424812,0.htm. Acessado em 23/09/2011; 20:00. 
[3] Idem. 
[4] Idem.