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DESCOBRINDO UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO DO BRASIL - I


A evangelização no Brasil sempre esteve vinculada à educação religiosa e à expansão institucional cristã bem como do poder político, primeiro com os católicos, depois com os protestantes. 
Enquanto que para Jesus salvação significava entrar no Reino de Deus pela porta do arrependimento e da fé, no cristianismo católico ou protestante, evangelizar significou e significa, predominantemente, mais uma adesão a dogmas ou confissões de fé. E expandir o Reino confunde-se com aumentar o número de fiéis, perpetuar o poder hierárquico e centralizador das estruturas, manter um patrimônio e multiplicar os resultados financeiros. 
Aproveito a proximidade com o dia 22 de abril, data em que se comemora (ou protesta) o “descobrimento do Brasil”, para refletir sobre evangelização. Encontro-me pessoalmente envolvido numa grande mobilização dos batistas em torno do desafio de “Conquistar a Pátria para Cristo” e sinto-me no dever de refletir sobre nossa história e posicionar-me criticamente. 
Embora pretenda concentrar-me numa reflexão dentro do chamado “movimento evangélico”, e no caso batista, em particular, é imprescindível uma breve revisão da evangelização na perspectiva católica. 
Os jesuítas, missionários católicos, marcaram sua presença desde a chegada dos primeiros portugueses. A Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I, considerada a “certidão de nascimento do Brasil” inclui uma sugestão do cronista que explicita a visão católica portuguesa de aliança entre fé cristã e interesses estatais. O fragmento a seguir revela esta concepção: 

“Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ele deve lançar”. 

(A Carta, Pero Vaz de Caminha). 

Mais tarde, Pero Magalhães Gandavo reforça esta perspectiva em seu Tratado Descritivo do Brasil: 

“Alguns vocábulos há nela de que não ousam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos: carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto por que assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disto conta nem peso, nem medida” 

(Tratado da Terra do Brasil, Pero Magalhães Gandavo). 

Além da presença católica, durante o período colonial, o Brasil sofreu invasões francesas e holandesas. Desta vez, calvinistas traziam a visão de implantar uma nação protestante no hemisfério sul. No entanto, somente com a vinda da Família Real portuguesa no início do século XIX consolida-se a permanência da fé protestante nesta terra. Sob pressão da coroa inglesa, D. João VI decreta a tolerância religiosa aos anglicanos. Ainda na primeira metade deste mesmo século, luteranos migram para o sul do país. 
Em sua Teologia da Educação Cristã, publicada pela CPAD, Claudionor de Andrade cita o conteúdo da carta de D. João VI: 

“Sua Alteza Real, o Príncipe Regente de Portugal declara e se obriga no seu próprio nome e no nome de seus herdeiros e sucessores a que os vassalos de Sua Majestade Britânica residentes em seus Territórios e Domínios não serão perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa de sua Religião, mas, antes terão perfeita liberdade de consciência e licença para assistirem e celebrarem o serviço divino em honra do Todo-Poderoso Deus; quer seja dentro de suas casas particulares, quer nas particulares Igrejas e Capelas de Sua Alteza Real agora e para sempre graciosamente lhes concede a permissão de edificarem e manterem dentro de seus domínios e conquistas, contanto que as sobreditas capelas sejam construídas de tal maneira que o uso de sinos não lhes seja permitido”. 

A partir desta abertura, começam a chegar as igrejas evangélicas oriundas de sociedades missionárias cuja marca principal é a peregrinação. Estas missões que aqui fundaram igrejas caracterizaram-se fundamentalmente por terem uma missão clara a cumprir em terras brasileiras: evangelizar. São frequentes as referências encontradas nos manuais de história eclesiástica do Brasil com respeito a essa ênfase motivadora. 
Escrevendo Igreja – Comunidade Missionária: O Reino de Deus e o povo peregrino, pela ABU Editora, Valdir Steurnagel informa: 
“A evangelização que visa à pregação do arrependimento e conversão, do pecado para Cristo, que justifica, perdoa e salva o pecador arrependido unicamente pela graça através da fé: eis a razão de ser da vinda de muitos destes missionários”. 
A raiz deste trabalho está no labor missionário dos colportores bíblicos, que assumiram a missão de colocar a Bíblia diante dos olhos brasileiros. Eles aproveitaram o espírito reformista que pairava no seio das lideranças políticas do Brasil, muito favorável à liberdade e tolerância religiosa. E destes ministérios itinerantes surgiram frentes missionárias das quais resultaram fervorosas congregações evangélicas, da costa ao sertão. 


FONTES: 
ANDRADEE, Caludionor de. Teologia da Educação Cristã, CPAD. 
STEUERNAGEL, Valdir. Igreja – Comunidade missionária, ABU. 
AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo. 
SOUZA, Ágabo Borges de. Cooperação como proposta de unidade no sistema convencional. O Batista Baiano, Ano LXXXI, nº 98. 
MACHADO, José Nemésio. Educação Batista no Brasil.

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