quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A IGREJA ENFRENTANDO A REALIDADE POLÍTICA

Na oração sacerdotal (João 17) Jesus afirmou que seus discípulos não eram deste mundo, não pertenciam ao sistema de valores dominados pelo mal, mas estavam no mundo e, por isso, rogava ao Pai que os livrasse do Maligno. Assim ele concluiu também a oração do Pai Nosso. Em Romanos 12,1-2, o Apóstolo Paulo apresenta-nos o desafio da renovação da mente e da transformação do mundo de acordo com a lógica de Cristo. 

No mundo com a mente de Cristo, o cristão é um agente político na cidade onde mora, no espaço onde interage. Aristóteles (384 a.C – 322 a.C) já preconizara: o homem é um animal político, um ser racional que usa sua capacidade lógica para interagir na vida social. Como agentes políticos, participantes da organização da vida da cidade, a polis, precisamos pensar e agir segundo a mente de Cristo para assumirmos um posicionamento político coerente como o Reino de Deus. A renovação da mente (noós) nos transforma, mudando o nosso ser e fazendo-nos capazes de experimentar a vontade de Deus. Assim, a nossa postura será proativa, procurando construir a sociedade de acordo com a nova criação de Deus em Cristo. 

A realidade precisa ser enfrentada. Vivemos numa democracia. A Constituição Federal concebe a República é formada pelo Estado Democrático de Direito, no qual o pluralismo partidário assegura que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente” (CF, Art 1º). A participação no processo político eleitoral é obrigatória porque indispensável. O voto direto e secreto, com valor igual para todos, é, ao mesmo tempo, direito e dever (CF, Art 14º). Tanto pelo fundamento bíblico quanto pela lei civil, o cristão deve evitar uma postura alienada, vendida, cuidando da vida eterna como sinônimo de “vida espiritual”, no “amanhã”, no “além”, justificando com isso um individualismo irresponsável. Se temos a mente de Cristo, se somos cidadãos, com direitos e deveres, usemos os meios legítimos para transformar as estruturas de acordo com a vontade de Deus. 

Diante desse desafio, entendemos que a mente do cristão deve leva-lo à conscientização. Segundo o maior educador brasileiro, Paulo Freire, este processo se dá no confronto com a realidade. A consciência que leva a ação, que conduz sua prática de vida a um posicionamento político coerente com a vontade de Deus. Esta postura politizada envolve a prática do amor nas relações sociais, a busca da justiça do Reino de Deus, a resistência diante de qualquer expressão da maldade.