A ORIGEM DO POVO HEBREU

O PLANO DIVINO PARA A HUMANIDADE 

A primeira parte do livro de Gênesis (1-11) conclui expondo o fim desastroso do pecado como rebeldia contra Deus. Os homens se uniram para o mal e usurparam o lugar da morada divina, como vimos da lição sobre a Torre de Babel. Este foi ponto culminante de um processo de degeneração progressiva que começou com a desobediência do primeiro casal no Éden. Mas em contraposição à ação autodestrutiva da humanidade, o texto prossegue mostrando que Deus conduz a história. E para a implantação do seu Reino em oposição a um reino humano idólatra, Deus começou a formar um povo através do seu agir salvífico na história.

Diante da humanidade rebelde e confusa Deus responde com a graça e traz a salvação que foi planejada na eternidade, mas entrou na experiência humana através da chamada de Abraão. Warren Wiersbe comenta que existe um contraste entre os caminhos do homem em Babel e os caminhos de Deus ao chamar Abraão. “O mundo depende de um grande número de pessoas poderosas a fim de realizar seus propósitos. Deus, porém, escolheu duas pessoas fracas e deu início a uma nova nação. O povo de Babel desejava tornar seu nome célebre, mas Deus prometeu engrandecer o nome de Abraão. Os que trabalhavam na torre de Babel seguiram a sabedoria deste mundo, mas Abraão e Sara confiaram na Palavra de Deus (Hb 11:11, 12). Babel foi construída com o vigor da carne e motivada pelo orgulho, mas a nação de Israel foi construída pela graça e pelo poder de Deus e apesar das fraquezas humanas” (WIERESBE, 2006).

A segunda parte de Gênesis (12-50) prossegue com o plano de Deus na forma de uma Aliança com os Patriarcas, iniciando com o primeiro e maior deles, Abraão, que recebe a promessa de bênção e descendência numerosa na Terra mesmo antes de gerar filhos. A aliança sofre ameaças como a fome e a desagregação da família. Mas o poder de Deus impede que ela seja desfeita apesar da fragilidade humana. Esta história de redenção culminará com a revelação especial de Deus na pessoa e obra de Jesus Cristo como intervenção perfeita e definitiva. Por meio de Abraão e durante todo o Antigo Testamento, Deus conduzirá a experiência de homens e mulheres de fé para agir de forma extraordinária e absoluta na cruz.


A ORIGEM SEMITA DOS HEBRUS

O nome hebreu significa “povo do outro lado do rio”. O termo distingue-se de ‘israelitas’ e ‘judeus’ por razões históricas, mas todos referem-se ao mesmo povo. Os hebreus se ligam com a conquista da terra na época de Abraão. Os Israelitas são os hebreus que recebem este nome a partir de Jacó, que lutou com Deus e recebeu nome de Israel, sua descendência os 12 filhos formam as 12 tribos de Israel. Judeus é a designação que os hebreus receberam depois da volta da Babilônia quando passaram a reconstruir Jerusalém e Templo e viver no território de Judá.

A origem do povo hebreu é semítica. A expressão litúrgica “Arameu prestes a perecer era meu pai” encontrada em Deuteronômio 26:5 revela o fundo histórico de nomadismo que marcou a origem do povo hebreu. Esta confissão refere-se às raízes dos israelitas. No segundo milênio a.C. houve um movimento migratório de tribos arameias do norte para o território de Canaã ao sul. A razão desta declaração era mostrar que não foi devido à grandeza de seus antepassados, cuja condição era má, mas ao dom de Deus e sua bondade que Israel desfrutava da terra prometida. Esta origem nômade foi registrada em Gênesis 11:10-32 com a genealogia de Sem, filho primogênito de Noé.


O avanço da infidelidade a Deus durante os quatro séculos que se passaram desde o Dilúvio com a quase corrupção total da descendência de Sem e sua extinção dentro da família humana. Isso demonstrava conclusivamente a necessidade de uma segunda interposição divina sem a qual o conhecimento da salvação seria completamente banido da terra. Assim, Abrão, filho de Tera, foi escolhido para ser o fundador de uma nova nação na qual a luz da verdade do evangelho poderia ser depositada para preservação até a plenitude dos tempos com sua realização final na manifestação da semente da mulher. Somente desta forma o Proto-Evangelho anunciado por Deus no Éden (Gn 3:15 – “descendente da mulher”) pode ser conectado com o Evangelho pregado por Paulo aos gentios (Gl 4:4 – “nascido de mulher”).


“Abrão e Naor tomaram mulheres para si: o nome da mulher de Abrão era Sarai, e o nome da mulher do Naor era Milca, filha de Harã, que foi pai de Milca e de Iscá. Sarai era estéril; não tinha filhos. Tomou Tera a Abrão seu filho, e a Ló filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos Caldeus, a fim de ir para a terra de Canaã; e vieram até Harã, e ali habitaram. Foram os dias de Tera duzentos e cinco anos; e morreu Tera em Harã”. (Gênesis 11:28-32)

A nova seção do capítulo apresenta o desenvolvimento futuro da promessa de salvação levando adiante a história até chegar a Abrão (“pai exaltado”), que depois teve o nome mudado para Abraão (“pai de multidões). De acordo com as ideias hebraicas, o número dez representa perfeição. Uma genealogia estruturada em torno de dez nomes comunica a ação completa de Deus que conduz a história. Abraão é o décimo depois de Sem. Esta foi a preparação para o início do plano divino de redenção da humanidade. Um homem pagão da Mesopotâmia transformado em homem de fé. Era de família abastada, porém frágil devido à idade avançada e à esterilidade da esposa. O propósito de Deus foi mostrar o seu poder usando uma família errante e ameaçada de extinção para formar uma nação a partir da qual todas as famílias da Terra seriam alcançadas com a sua bênção.


O CHAMADO DE ABRAÃO

“Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção. Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gênesis 12:1-3)

Abraão tornou-se o pai de Israel por descendência natural, pai dos cristãos pela fé e uma bênção para todos os povos. Conforme Gênesis 12:1-9, Deus escolheu Abraão do ambiente idólatra dos Caldeus para formar um povo por meio do qual a verdadeira adoração pudesse ser mantida até a vinda de Cristo. Desde então, Abraão e sua semente são quase o único assunto da história na Bíblia (HENRY, 2008).

Abraão deixou sua terra e sua parentela, os elementos mais fundamentais que lhe proporcionavam segurança. Deus não especificou para onde ele deveria ir, mas lhe disse que seu destino seria a herança reservada pelo Senhor. Este chamado é acompanhado pela promessa da presença do Senhor que o acompanharia. O autor aos Hebreus destaca o exemplo de fé do principal herói da história de Israel com estas palavras: “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os fundamentos, da qual o arquiteto e edificador é Deus” (Hebreus 11:8-10)

Segundo o Comentário Bíblico Africano (2010), “As duas predições, ‘sê tu uma bênção’ (ou “tu serás uma bênção”) e ‘em ti serão benditas todas as famílias da terra’ deixam claro que Abrão não devia guardar as bênçãos de Deus para si, mas usá-las para abençoar outros. Tal fato se concretizaria de forma suprema no nascimento do Salvador, seu descendente. A salvação oferecida por ele não pertence exclusivamente a nenhuma nação, como os judeus cristãos da igreja primitiva tiveram de aprender; antes, é passada adiante por uma nação e através dela”.

Nas palavras de Estevão, primeiro mártir da igreja cristã, a história do chamado de Abraão é resumida assim: “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra e dentre a tua parentela, e dirige-te à terra que eu te mostrar. Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã. Dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais. E não lhe deu nela herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prometeu que lha daria em possessão, e depois dele à sua descendência, não tendo ele ainda filho” (Atos 7:2-5).

Em seu comentário bíblico, Mattew Henry afirma que toda a verdadeira bênção que o mundo possui agora ou possuirá um dia é devido a Abrão e sua posteridade. Por meio deles temos uma Bíblia, um Salvador e um Evangelho. Ele também relaciona o chamado de Abraão com o chamado divino a todos os cristãos com o seguinte esquema:

1. “Eu farei de ti uma grande nação” - Quando Deus tomou Abrão de seu próprio povo, ele prometeu fazer dele a cabeça de outro povo;

2. “Eu te abençoarei” - Os crentes obedientes certamente herdarão a bênção;

3. “Farei o teu nome grande” - O nome dos crentes obedientes certamente será grandioso;

4. “Tu serás uma bênção” - Bons homens são as bênçãos de seu país;

5. “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar” - Deus cuidará de que ninguém seja um perdedor, por qualquer serviço feito por seu povo.

6. “Em ti todas as famílias da terra serão abençoadas” - Jesus Cristo é a grande bênção do mundo, a maior que o mundo já possuiu; (HENRY, 2008)


REFERÊNCIAS

CHAMPLIM, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia: volume 1. São Paulo, SP: HAGNOS, 1991.

COELHO FILHO, Isaltino Gomes. O Pentateuco e sua contemporaneidade. Rio de Janeiro: JUERPE, 2000. 167 p.

COMENTÁRIO BÍBLICO AFRICANO. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.

HENRY, MATTEW. Comentário Bíblico. São Paulo: CPAD. 2008.

SAYÃO, Luiz. Rota 66 – Bíblia de Estudo Comentada em Áudio. Editora RIDEEL.

WIERSBE, Warren. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento: volume I, Pentateuco. Santo André, SP: Geográfica editora, 2006.

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