sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A FAMÍLIA COMO AGENTE DE PREVENÇÃO


Texto produzido para compor o material do Dia Batista de Ação Social 2014 a ser distribuido pelo DAS - Departamento de Ação Social da CBB - Convenção Batista Brasileira.



O missionário da Missão Batista Cristolândia - Salvador comemorou seu aniversário ao lado dos amigos, dentre eles ex-dependentes químicos que moravam nas ruas do centro histórico da Capital. Ele ganhou dois bolos para a festa e decidiu descer até a Cracolândia para repartir um deles com as pessoas evangelizadas pelas equipes do projeto. Um jovem dentre eles comentou o gesto do missionário: “eu nunca ganhei um bolo de aniversário e hoje você repartiu o seu com a gente”.

Depois de ouvir esse testemunho comecei a refletir sobre a relação entre bolo de aniversário e dependência química. O bolo representa o que de mais singelo se pode experimentar no seio de uma família onde o amor é compartilhado. A lembrança de que o outro é especial, tem um lugar, é amado. A dependência de drogas como flagelo da sociedade atual denuncia a desagregação da nossa estrutura familiar.

Dada a complexidade da questão em torno do uso abusivo de drogas seria ingênuo sugerir que mais festas de aniversários significariam menos cracolândias. Está longe de ser esta a proposta aqui. Mas cremos sim que a família é um poderoso agente de prevenção para os males que intentam destruir a humanidade. Esse poder não é resultado dos seus recursos, esforços ou interesses. Ela recebe na dependência de Deus quando o experimenta de forma saudável e eficaz.

Em 2014 os batistas brasileiros enfatizam “A família como o ideal de Deus para o ser humano”. Afirmamos que a família divinamente instituída, biblicamente definida e tradicionalmente preservada pelos valores cristãos é o único caminho para conter o avançado estado de degeneração social no qual estamos envolvidos.

Pensando sobre família, neste Dia Batista de Ação Social queremos refletir sobre a família como agente de prevenção contra o uso abusivo de drogas. O texto que servirá de base para nossa meditação é Salmos 68:5-6.

Antes de ler, porém, devemos lembrar que o livro de Salmos celebra a vida em Deus. Neste Salmo 68 o ambiente é a festa da colheita e a lembrança da libertação do Egito. O que Deus fizera e continuava a fazer no meio do povo servia de testemunho e esperança para toda a humanidade.

“Pai para os órfãos e defensor das viúvas é Deus em sua santa habitação. Deus dá um lar aos solitários, liberta os presos para a prosperidade, mas os rebeldes vivem em terra árida” (Salmos 68:5-6)

Nestes versos, Deus é celebrado como fonte de proteção e garantia da liberdade do povo que nEle confia. Além disso, apresentado como Pai que envolve-se afetuosamente com a história do seu povo lutando em favor dos direitos dos oprimidos.

O texto nos comunica que Deus cria e mantém a família mesmo diante das realidades do deserto ou da opressão. Sendo poderoso mas, ao mesmo tempo, bondoso, o Deus de Israel se revela como a fonte do amor, do cuidado e da proteção necessárias à vida em família e à benção para a comunidade em torno dela.

“Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus na sua santa morada” (68:5)

Orfandade e viuvez no Antigo Israel representavam as formas mais dramáticas de vulnerabilidade e abandono. Deus ser apresentado como “Pai de órfãos e juiz de viúvas” comunica o máximo da experiência com a bondade e o poder de Deus na esfera social.

Jesus nos ensinou a chamar Deus de Pai em nossa oração (“Pai nosso” – Mt 6:9). O poder-bondade divino dá identidade à família e cria um ambiente de aceitação e afirmação do valor de cada um. Deus é Pai “que estás no céus”, sua morada, lugar de onde emanam suas intenções perfeitas. O lar que vive essa presença e coopera com essas intenções passa a experimentar o amor que flui sem parar através da confiança em sua Vontade.

Através do curso “Fé na Prevenção”, o Governo Federal promoveu a capacitação de lideranças religiosas e movimentos afins para o enfrentamento do uso abusivo de drogas. O material de estudo é enfático em apresentar a família como um fator de proteção principalmente para os jovens. Bom relacionamento familiar, pais e familiares presentes e participativos, regras claras de comportamento e monitoramento das atividades previnem contra as drogas. Por outro lado, falta de envolvimento afetivo e educação frágil representam risco para todos.

Segundo esse material, produzido pela UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, a prevenção começa pela resposta a uma pergunta simples: Por que as pessoas usam ou evitam usar drogas? Prevenção é uma ação antecipada para evitar ou diminuir um problema. A família pode ser, ao mesmo tempo, fator de risco ou proteção. Pensando especificamente na adolescência, impulsividade, curiosidade e necessidade de aceitação pelos grupos de afinidade exigem da família maior atenção e envolvimento nessa fase.

Nesse momento da vida, as pessoas precisam ainda mais de segurança, limites definidos, ideais a serem defendidos. Por isso, a coerência na postura dos pais, o bom relacionamento e o monitoramento fortalecem a proteção. Contudo, a única via possível é mesmo a direta. É preciso estar presente e envolvido. Nem mesmo a igreja local pode substituir e não é por fazer parte de uma religião organizada que pais e cuidadores estão isentos desse papel.

Por outro lado, o estudo também mostra que a religiosidade é cientificamente comprovada como fator de proteção contra as drogas. A família que desenvolve valores espirituais oferece aos seus membros maior expectativa de vida e melhores condições para o enfrentamento do estresse e dos eventos negativos da vida. Quando realmente aplicados ao convívio familiar esses valores permitem que os mais jovens cresçam dentro de um ambiente emocionalmente saudável.

Há, portanto, um reconhecimento por parte dos órgãos governamentais da capacidade da família em agir como base de prevenção contra a dependência química. Além disso, o Estado investe em comunidade religiosas e movimentos dessa natureza por constatar suas próprias limitações diante da epidemia das drogas, sobretudo do Crack, em todo o país. O governo brasileiro sinaliza o que já sabemos na dinâmica de vida de uma igreja local: espiritualidade é saúde.

A espiritualidade legada pela tradição judaico-cristã é fundamentada na família. Ensina que a família é uma instituição divina e apresenta-a como caminho para a preservação da humanidade. O povo judeu viveu a experiência histórica do deserto e da opressão. Muitas famílias hoje vivem essa mesma realidade por conta das desigualdades e injustiças. Mas o aprendizado espiritual que nos foi transmitido informa sobre um Deus que cria e sustenta a família até mesmo diante de situações-limite.

O professor Merval Rosa, em suas preleções sobre família, muitas delas incluídas no livro “A família e os desafios de um novo tempo” afirmava que a prática sincera e efetiva da religião no lar é um fator de preservação da família. A começar do culto doméstico, oportunidade de celebrar a vida em gratidão. E além do culto, a mordomia, administração dos recursos e do tempo em função das prioridades do Reino de Deus. Mais ainda, a prática da verdade e da justiça inspiradas na vida de Jesus. Essa experiência saudável com Deus no ambiente familiar prepara-a para enfrentar os desafios do seu tempo e traz esperança.

As novas gerações desejarão continuar esta caminhada e serão fortalecidas diante dos ataques de uma cultura de violência e degeneração do ser humano. Quando aborda essa questão o professor relaciona essa vivência religiosa com a participação efetiva na vida uns dos outros no ambiente doméstico e a manutenção de interesses comuns. Vale a pena citar o que o Dr. Merval Rosa diz sobre essa consideração: “De acordo com a concepção cristã de vida, a família foi instituída pelo próprio Deus e deve tê-lo como fator central, quer na sua formação e organização, que em seu modo de funcionar”

“Deus faz que o solitário viva em família: ele traz à tona aqueles que estão presos em cadeias, mas os rebeldes habitam em terra seca” (68:6).

O povo de Deus celebrava neste Salmo acolhimento e resgate para aqueles que estavam à margem, sem-teto, destituídos de direitos. Além disso, assim como fizera com Rute (Rt 4:11), Deus concedia filhos a pessoas solteiras permitindo que nascesse uma família. O cuidado divino dependia da organização familiar. A família era expressão da bondade de Deus. Independente do histórico familiar do “solitário” sua esperança é “habitar em família”. Deus restaura e direciona.

Nossa sociedade produz cada vez mais solidão como resultado de uma vida centrada no homem. O abandono de Deus levou a ver-se como um fim em si mesmo. O que parecia ser liberdade transformou-se em escravidão. A autonomia degenerou para alienação do outro e do sentido último da vida. Individualismo é a marca desse tempo.

Eliane Amaral, Assistente Social e Terapeuta Familiar, em seu texto “Ameaças à família no Século XXI”, publicado em seu Blog, destaca três delas: o consumismo, o hedonismo e o uso abusivo de recursos tecnológicos como os principais perigos. Esses fatores permitem identificar o perfil de uma sociedade cada vez mais orgulhosa das suas potencialidades mas, ao mesmo tempo, cada vez mais desagregada e perdida. Por isso ela afirma: “Nossas famílias precisam de Deus. Nossas famílias precisam de Mais Vida. Que o próprio Deus seja o construtor das nossas famílias e nos dê sabedoria para reconhecer as ameaças e dar um basta no consumismo, no hedonismo e na utilização abusiva dos novos recursos tecnológicos”.

Nesse ponto vale a referência ao fenômeno da “terceirização” da educação dos filhos, abordado no livro “Cuidado, Afeto e Limites”, de Ivan Capelatto e José Martins. Segundo os autores, a ausência de casa em função das demandas do trabalho e da resposta social gera uma transferência de responsabilidade para outras agências, como a Escola, aumentando os problemas psicológicos relacionados com a entrada de adolescentes e jovens no mundo das drogas. Por isso, mesmo famílias de tradição religiosa podem sofrer as consequências de uma sociedade cada vez mais organizada em função da posse e da exibição de bens e do prazer a toda hora e a qualquer custo.

Para esse estilo de vida rebelde contra Deus e, infelizmente, cada vez mais comum, o texto lido encerra com uma advertência severa: o orgulho diante de Deus leva à experiência do deserto do individualismo e da consequente opressão do próximo. Somente Deus pode transformar esse ermo destruidor em um lar aconchegante. Mas, a abertura para receber sua presença é a fé como sinônimo de confiança e dependência.

O missionário que compartilhou o bolo de aniversário viveu essa experiência de solidão e abandono. Deus o libertou da dependência química e restaurou a sua família. Na mesma Cracolândia onde comemorou seu aniversário ele encontrou um menino que não conhecera um lar e havia se tornado num perigoso traficante. Convidado à mudança para uma nova vida, agora adolescente, ele não poderia ser tratado na Missão Batista Cristolândia devido à sua idade. O missionário o levou ao à Justiça e conseguiu a guarda durante o tratamento, tornou-se seu pai, pelo menos, naquela circunstância.

Deus se revelou como Pai daquele menino através do gesto do Missionário. É uma experiência distante do cotidiano da maioria de nós. Mas define bem o que a família representa para todos: uma providência da paternidade divina, protetora e terna, capaz de vencer a solidão transformando o deserto em lar. Nessa família que tem Deus como centro, além de bolos de aniversário, o amor divino recebido e compartilhado, será a melhor motivação para que nossos jovens decidam não usar drogas.