terça-feira, 19 de março de 2013

PELO PRAZER DE CHAMAR DEUS DE PAI


“Eu também sou filho de Deus!”. Essa exclamação comum quer reivindicar alguma permissão ou pleitear algum benefício. Mas, pode também revelar um anseio comum ao ser humano de desenvolver um relacionamento de filiação com alguma divindade. O cristianismo responde a esta aspiração. Os cristãos receberam da tradição judaica a compreensão de que a vida espiritual ou religiosa deve partir desta perspectiva, “de Pai para filho”. Devemos desfrutar do relacionamento que Deus quer ter conosco. O Deus que se torna Pai ao criar o ser humano, “Pai das criaturas”. O Deus “Pai da nação” de Israel desde o chamado a Abraão para ser “Pai de nações”. 

A melhor definição para “Deus” está nas palavras de Jesus: “Pai nosso”. Inspiram-me muito as saudações de Paulo em suas cartas apostólicas: “Deus nosso Pai” ou “Pai do Senhor Jesus Cristo”. Talvez seja até mais significativo meditar nesta filiação espiritual tomando Deus simplesmente como “Pai de Jesus de Nazaré”. Quando inquirido pelos discípulos sobre a oração, Ele ensinou: orem chamando Deus de “Pai”. Este convite sublime nos encaminha para uma vida de fé que se aproxima da intimidade da Sua relação enquanto Filho de Deus que encarna o amor eterno do Pai. 

Através de Jesus, “O Filho”, podemos nos tornar “Filhos de Abba” como brincou Israel Belo de Azevedo citando Gálatas 4,4-7. Citando este texto e relacionando-o com Romanos 8,12-17, ele argumenta em sua conclusão: “Sem a graça somos filhos por geração (criação). Com a graça, somos filhos por adoção, pela reconciliação. A filiação é um dom de Abba, não um prêmio merecido pelo filho (verso 12). Esta filiação foi promulgada na cruz, quando Jesus perguntou ao Pai: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste". Ali houve uma troca: Jesus foi deserdado como Filho, e nós assumimos o lugar de filhos. A filiação se torna efetiva com a aceitação da graça oferecida” (http://www.prazerdapalavra.com.br). 

“Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: “Abba, Pai”. Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro”. 

John Stott, em sua obra magistral, A Cruz de Cristo, destaca uma diferença entre o ensino de Paulo e de João. Enquanto Paulo parte do contexto romano de adoção, João atribui o fato de sermos filhos de Deus à experiência mística do novo nascimento. Para ele Israel não recebeu o Filho de Deus, mas todos os que recebem o Filho assumem o poder de filhos nascendo do Espírito (João 1,12-13). Para ambos, todavia, tanto o nascimento como a adoção são gerados e confirmados pelo Espírito Santo. É o Espírito que confirma como nosso espírito essa filiação. 

“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1 João 3,1-2). 

David Kornfield discute em O líder que brilha a tensão entre o que ele chama de identidade de Filho e identidade de servo. Para ele a maioria dos pastores e líderes vive em função do esforço, do ativismo, do resultado e perdem o prazer de desfrutarem de uma relação íntima e amigável de entrega e dependência como um filho deve viver com seu pai. Kornfield aborda esse problema analisando a conhecida “Parábola do Filho Pródigo” de Lucas 15 como a “Parábola dos Dois Filhos Perdidos”. Nela o filho mais velho escolheu viver como servo ficando fora da festa na casa do Pai. Muitos “filhos mais velhos” estão perdendo o prazer de chamar Deus de Pai, ouvem a música e as danças, sentem o cheiro da comida que é abundante lá, mas preferem continuar vivendo como escravo. Estribam sua espiritualidade na produção, no desempenho, amargando o pior que a experiência religiosa pode oferecer quando poderiam considerar o que Gerson Borges transformou na música “Dia de Festa”: “a casa do pai é o melhor lugar do mundo”. 

Quando nossa vida cristã adquire esta perspectiva, quando vivemos a fé cristã nesta dimensão, evitamos a degeneração do Cristianismo para uma religião do terror, baseada no medo. As igrejas estão cada vez mais abarrotadas de pessoas que chegam ao templo como se estivessem adentrando a uma fábrica, que fazem da sua vida devocional uma agenda laborativa, embrenham-se nos labirintos do ativismo para conquistarem reconhecimento e manterem uma reputação. Sentem-se ameaçados pela punição do terror divino, interpretam perdas e intempéries à diminuição na quantidade de oração ou leitura bíblica. Serão cortados e queimados se não evangelizarem ou dizimarem. É assim que tratam os outros também, não conseguem ir além a mais da mesquinhez, da inveja, crueldade. 

O convite da graça nas palavras de Jesus é para uma vida marcada pelo prazer de chamar Deus de Pai. Orar é bater um papo com o Pai. Ler a Bíblia é ouvir os conselhos do Pai. Evangelizar é convidar outros para a festa na casa do Pai. Servir é fazer a vontade do Pai. Essa é a vida cristã que eu quero viver junto com meus irmãos, os irmãos do Filho, aqueles que receberam o Filho e tornaram-se filhos. É isso que eu quero para minha filha. É isso que eu quero para os que estão longe e os que estão perto, aqui ou nos confins da Terra. 

Para a Glória de Deus,