terça-feira, 16 de outubro de 2012

"VEREI DEUS"



“Eu sei que o meu Redentor vive, 
E que no fim se levantará 
Sobre a terra. 
E depois que meu corpo 
estiver destruído e sem carne, 
verei Deus. 
Eu o verei 
Com os meus próprios olhos; 
Eu mesmo, e não outro! 
Como anseia no meu peito o coração!” 
(Jó 19,25-27) 

Encontramos aqui Jó angustiado diante das palavras dos amigos que insistem no argumento de que a raiz do seu sofrimento seria o pecado. Depois de cair na armadilha da “lei da retribuição”, Jó agora lança-se na esperança de resgate, como num suspiro em busca de alívio, e expõe confissão de fé que surpreende quem vem lendo desde os primeiros capítulos. Evoca a figura do redentor e projeta sua salvação para um tempo posterior à sua morte quando seria por fim redimido. 
“Resgatador” refere-se a um papel social importante no antigo Israel. Lembramos que Boaz exerce essa função casando-se com Rute (Rt 4). Deus é o libertador da escravidão egípcia e também resgata o povo exílio. Jó afirma sua certeza de ser defendido, redimido, resgatado. Deus é para ele o advogado que se levantará no final. 
Nestes versos, o livro antecipa surpreendentemente a doutrina da ressurreição exposta pelos escritores do Novo Testamento. Ultrapassa os limites do sepulcro associando a fé ao desejo de ver a Deus. A certeza que preenche a mente também completa o coração de alegria. Alegria que brota do desejo por Deus. 
John Piper, pregador do hedonismo cristão, defende a doutrina protestante sintetizada na Confissão de Westminster: “Deus é mais glorificado em nós quanto mais nos alegramos nEle”. Piper relaciona alegria e desejo quando fala de fé salvadora: “fé salvadora é desejar Jesus”. Para Jó, o desejo de ver seu Redentor movia-o m meio ao sofrimento e gerava satisfação e superação. 
O confronto com o sofrimento e a morte serve-nos de avaliação eficaz dos desejos. O sofrimento purifica o desejo, a fé eleva-o. Passando pelo “vale da sombra e da morte”, enfrentando a dor lancinante da perda dos filhos, a incompreensão da esposa, a acusação dos amigos, o atordoamento da enfermidade, Jó nos ensina que a fé na redenção final é geradora de satisfação plena em Deus hoje. 
Seu corpo desfalecia, sua carne era destruída, sua alma gemia. Mas desejar Deus o fortalecia. Desejar vê-Lo alimentava-o. Deseja-Lo permitia a vitória sobre a morte. Desejar era seu triunfo