segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

VIDA E PRAZER NA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

O que é espiritualidade cristã? Como nasce e como pode ser nutrida? Estas perguntas tornaram-se um desafio à fé cristã, que diante de um mundo em crise, é obrigada a revelar um modelo de espiritualidade inspirado no evangelho vivido, ensinado e pregado por Jesus, encarnando-o como mensagem relevante para a cultura dos nossos dias. Neste sentido, precisamos apresentar ao mundo uma tradição de fé que tenha profundidade eficaz, combatendo sempre a superficialidade da experiência individual. 

A Bíblia não nos apresenta palavras ou teorias sobre a espiritualidade. Podemos interpretar seus conteúdos sobre o tema. Mas deverá ser incluída sempre uma análise da influência que o cristianismo primitivo recebeu do Gnosticismo. Essa doutrina significou um perigo para a compreensão da Encarnação de Verbo. Segundo esse ensinamento Jesus seria somente a aparência física do Cristo de Deus e não o Deus encarnado. O Apóstolo João combateu essa influência quando ensinou a comunidade do discípulo amado: “...e o Verbo se fez carne e habitou entre nós”... (Jo 1,14-17); “...o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida” (1 Jo 1,1-4). 

A Igreja Cristã aceitou mais tarde esta orientação, Jesus de Nazaré é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Isso deixa-nos a confirmação de que só poderemos conhecer a Deus através da vida humana. E assim, como se revelara na criação do mundo, Deus tornara-se visível na vida humana, como Jesus Cristo, Homem-Deus. Nesta perspectiva podemos afirmar que a vida como criação de Deus revela o caminho para uma espiritualidade integral (Gênesis 1,31 - “e eis que tudo era muito bom”). 
A vida espiritual não é aquela que recebe esse adjetivo (“trabalhar em espírito”, “orgulho santo”, “praia abençoada”). A nossa espiritualidade não deve ser reduzida ao extático, ao momentâneo, ao explícito, ao barulhento. O Espírito de Deus é quem nos dá a vida, dá movimento à vida. Somos nascidos do Espírito (Jo 3,8), toda a nossa vida revela o movimento do vento do Espírito. E este vento é como o poder que impulsiona. Somos possuídos pela fé que nos toca. Não se condiciona a nada, como poderemos fugir? (Salmos 139,7). Não podemos esperar o encontro e a caminhada com o Espírito da Vida somente nos momentos devocionais, nas celebrações comunitárias, nos shows ou nos encontros. 
Mas, como nasce então essa espiritualidade? Com o mergulho na nossa própria finitude, confrontando as nossas limitações, encontrando-se com o poder da graça de Deus. Não podemos começar dos altos ideais, de cima para baixo, buscando a perfeição ideal e fugindo da imperfeição real, reprimindo a vida a partir do “é proibido”. Se começarmos assim, nos precipitaremos no abismo do esgotamento espiritual, vivendo a loucura do perfeccionismo, desejando ser como Deus. A vida espiritual não é um privilégio dos deuses, é um desafio para os humanos. Assim como o Apóstolo Paulo que declarou a sua própria falência e preferiu se alegrar na graça: “miserável homem que sou” (Rm 7,24-25); “a minha graça te basta” (2 Co 12,9). 
A espiritualidade cristã nasce com um mergulho e se mantem na relação constante com Deus. Na vida e no ministério de Jesus essa relação foi marcada pela luta e pela festa. Lutar contra os inimigos da vida para oferecer salvação a todos os homens. Contra os líderes religiosos, contra os demônios, contra os seus próprios seguidores. Jesus se retirava para orar, orava em grupo, celebrava nas sinagogas, no Templo. Essa era a luta. No entanto, a presença de Jesus era quase sempre acompanhada de festa. Casamentos. Banquetes. Viagens. Pescarias. Com os discípulos. Com publicanos e prostitutas, seus amigos. 
Isto nos ensina que a relação com Deus deve ser como um enamoramento, pautado pelo prazer responsável. O prazer de sermos quem somos e, ainda assim, amados por Deus, e de estarmos com ele em cada momento, mesmo quando não pensamos nEle, mesmo quando não estamos contritos em nosso momento devocional. 
Além do princípio da vida, este é outro princípio da nossa espiritualidade: o prazer responsável. A satisfação em contemplar os fundamentos da nossa fé como a intervenção sobrenatural de Deus na história. A virgem grávida do Espírito Santo. O Santo Jesus de Nazaré vivendo sem pecar e morrendo pelos pecados da humanidade. Sua ressurreição corporal dentre os mortos, a vitória dos salvos. Sua ascensão gloriosa aos céus para interceder à destra do Pai. Sua volta pessoal como Juiz dos vivos e dos mortos. 
Este prazer nos levará a meditar na Palavra e crescermos em oração a partir dela. Nisto o livro de Salmos insiste: o prazer em meditar na Lei do Senhor (1,2; 119); alegria com a presença de Deus na vida (16,11); saciedade da alma pela caminhada com o Senhor (Is 58,11). Assim como no namoro, o prazer da relação com Deus nos levará à autodisciplina. Precisamos de recolhimento, de solitude, de deserto, de silêncio, de meditação, de oração. 
A vida e o prazer na espiritualidade cristã nos trará a alegria perene da graça de Deus. E assim poderemos responder ao mundo que nos desafia. Precisamos viver a vida cristã sem os extremos do dever que reprime a vida e tira o prazer e do prazer que igualmente escraviza porque não respeita a vida.