terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ESPERANÇA DIANTE DA VIOLÊNCIA

Temos sido expostos diariamente a um turbilhão de informações, desde troca de acusações até teorias sobre as causas da violência. Governo, mídia, polícia, opinião pública. Diante de tantos movimentos e reações, o problema toma proporções cada vez maiores e mais perigosas. A sociedade se mobiliza, a família teme e reage, e a Igreja? Qual o posicionamento adequado diante deste quadro de maldade e pecado que se concretiza em miséria e violência? O debate sobre a violência tem levantado questões relevantes para a militância da Igreja de Cristo e sua missão no mundo. Que falta fazem os profetas, como disse Ricardo Gondim. Quão necessária é a missão profética da Igreja, de enfrentamento e compromisso com esta situação real de violência. A Igreja deve encarnar a mensagem e a missão que recebeu de Deus, para denunciar o atual estado de des-graça, e anunciar as promessas da salvação que afiançarão a esperança do povo. 

O livro do profeta Oséias apresenta uma crítica cultual severa (4,1-3; 6,3 e 6). A infidelidade do povo é denunciada como prostituição e a falta de conhecimento de Deus é apontada como a causa da violência generalizada. Como porta-voz da mensagem de Deus ao povo, o profeta é convocado a encarnar a mensagem proclamada através de uma “ação simbólica”, ele foi desafiado a dramatizar sua mensagem: casar-se como uma prostituta. Isso representaria a postura do povo diante do seu Deus, a infidelidade. A coragem do profeta em viver na pele a sua mensagem desperta a Igreja hoje a reagir diante do pecado e da violência. 
Existe uma relação entre pecado e violência, um vínculo, o mal. O ser humano tem em sua natureza a presença do thanatos, o impulso para a morte, a maldade no íntimo. E este mal nasce do pecado, orgulho e egoísmo. Essa atitude humana diante do criador envolve rebeldia e desobediência. Na Bíblia o conceito de pecado está ligado a acontecimentos e situações, atitudes cotidianas, quais sejam: inveja, individualismo, interesses e vantagens próprias, omissão. O pecado leva o homem a um distanciamento de Deus e uma conseqüente ignorância diante do seu projeto para a vida humana. Assim, quem não conhece a Deus e a sua vontade deixa de ver os outros como criaturas Suas. É com o mal interior em sua relação como o pecado que atingimos o outro, tornamo-nos violentos. Do pecado e do mal surgem agressividade e possessividade. 
O mal como fenômeno histórico e cultural é concretizado pelas ações humanas concretas. Obviamente existem causas socio-históricas, tais como as desigualdades e injustiças, a concentração de renda, a formação desajustada dos grandes centros urbanos, as diferenças ideológicas e raciais. No entanto, a compreensão coerente da violência humana deve levar em conta a relevância do problema teológico que envolve a questão. Em Noé já está presente a leitura da violência a partir de uma compreensão teológica (Gn 6,5,11-12): “a imaginação dos pensamentos do coração do homem era má continuamente”(v 5). O homem estava destruindo a própria vida pela sua maldade. Em Noé, temos a tentativa de recriação através do justo, que teme a Deus e busca o seu conhecimento em família. 
O projeto de Deus para o homem é a vida e sua continuidade, como ensinava o professor Ágabo Borges em suas aulas de Antigo Testamento. Nos primeiros dois capítulos do Gênesis tem-se a síntese desta vontade criadora. E a continuidade da vida não estava somente na produção e reprodução da terra e dos seres, mas também na harmonia das relações estabelecidas do homem com Deus, com o próximo e com a natureza. O pecado quebra esta harmonia, surge, então, um problema de tripla proporção: existencial (3,10,16 e 19), comunitário (4,9) e ecológico (3,17-18). Caindo e quebrando a harmonia da sua relação com Deus, o homem perde o fundamento da sua existência (não sabe mais onde está, vive com medo e envergonhado). Isso interfere na sua relação com o próximo (o homem passa a ser invejoso) e com a natureza, o ambiente de existência. 
Só a relação ajustada com Deus, na qual o homem é criatura, imagem e semelhança, mordomo da criação, é capaz de manter o projeto divino. Através desta relação o homem conhece a vontade divina para si e sua existência. Com a Lei, instituída para a proteção da vida, orientação e preservação da liberdade, de acordo com o estudo de Frank Crüsemann, esta vontade se revela de maneira mais objetiva: “não matarás” (Ex. 20,13). Com este mandamento estava asseverada a segurança da vida do próximo e da família. O homicídio era ilegal e arbitrário. A morte violenta de um inocente era, por isso, severamente punida. Mas, este ordenança divina estende-se também para ações e atitudes cotidianas que agridem a vida e a liberdade, palavras, gestos e até o silêncio indiferente. Ou como interpreta Westminster: “Tirar a vida ou a de outrem, a negligência ou os meios lícitos ou necessários para a preservação da vida, a ira pecaminosa, o ódio, a inveja, o desejo de vingança, paixões excessivas e cuidados demasiados..., a opressão, a contenda, os espancamentos, os ferimentos e tudo o que tende à destruição da vida”. 
O profeta Oséias retoma o decálogo e acusa a falta de conhecimento de Deus como responsável pela violência em seu tempo. A igreja, por sua vez, conhecedora do projeto de Deus para a vida humana, deve se comprometer com uma agenda que inclua a intervenção eficaz na sociedade. O combate à cultura de morte que a mídia insiste em reproduzir. A denúncia do descaso do poder público constituído diante das desigualdades e injustiças sociais. As ações comunitárias de prevenção da violência contra a mulher e a criança. O desenvolvimento de estratégias para alcançar jovens que se lançam na delinqüência. A valorização incondicional da vida humana através da vivência em comunhão e da prática dos valores do Reino de Deus, fonte da nossa esperança. A leitura do profeta Oséias bem como de sua releitura do decálogo e do projeto de Deus desperta-nos para o resgate necessário da missão profética da Igreja de Cristo: denunciar o pecado e anunciar a esperança, num mundo violento.